Um rebelde chamado Frans Krajcberg

Até seus últimos dias o artista manteve o vigor do ativismo ambiental em suas obras

“O sucesso do (agronegócio do) Brasil está baseado em dados”

Joseph Byrum, cientista de dados do Principal Financial Group (EUA)


Edição 1 - 16.11.17

O artista plástico polonês, naturalizado brasileiro, Frans Krajcberg, morreu na quarta-feira, 15 de novembro, no Rio de Janeiro. Ele tinha 96 anos e a causa de sua morte não foi revelada. 

Krajcberg usou sua arte como uma forma de ativismo ambiental, no qual se engajou até seus últimos dias. Suas obras deram novo significado a troncos calcinados pelo desmatamento ilegal. No ano passado, foi o principal homenageado da Bienal de São Paulo. Na ocasião, PLANT PROJECT publicou uma reportagem sobre sua vida e seu trabalho. Confira o texto:

Foto de Djanira Chagas

Um rebelde chamado Frans Krajcberg

Por Ana Weiss

Povoada por artistas na maioria jovens, politizados, criadores pertencentes a uma geração que vive em rede e acompanha tudo o que acontece no mundo em tempo real, a Bienal de São Paulo deste ano tem como atração central trabalhos de um senhor de 95 anos, que não gosta de ser fotografado e vive em isolamento quase total em uma casa na árvore erguida a quase dez metros do solo no litoral Sul da Bahia. Frans Krajcberg assina as obras que abrem a 32ª edição do evento, o segundo maior acontecimento de arte contemporânea do mundo, com uma proposta muito anterior a conceitos como sustentabilidade. Mas que é pioneira e fundamental para entender o uso da natureza como matéria, linguagem e como plataforma de denúncia dos maus tratos ao planeta, hoje tão em voga em grandes mostras e galerias – e tão relevante nas discussões do agronegócio moderno.

Judeu, Frans Krajcberg chegou no Brasil com 27 anos, logo depois de perder toda a família para a Segunda Guerra Mundial. Não é difícil associar suas mais famosas esculturas, feitas de troncos calcinados, com o método mais conhecido de extermínio do Holocausto, a incineração de prisioneiros. Ele lembra que, certa vez, em um campo de concentração na Hungria, se aproximou de uma imensa pilha de lixo monocromática para descobrir do que se tratava. Eram corpos humanos, queimados. “Quando cheguei ao Brasil descobri uma natureza que sorria para mim sem perguntar de onde eu era”, contou ele, polonês de nascimento mas brasileiro por opção, quando recebeu o prêmio Multicultural Estadão, em 1998 – apenas um dos muitos que recebeu mundo afora. A população do Pico de Cata Branca, em Minas Gerais, seu primeiro endereço no País, conta que durante o tempo em que viveu e trabalhou dentro de uma caverna da região, o artista fugia das pessoas, “como um animal machucado”. Nessa época, ele abandonou a pintura abstrata para se dedicar a esculpir pedras.

Mais de mil peças, entre esculturas monumentais, quadros e fotografias, compõem o museu que funciona em seu sítio

Nos anos 1970, a convite do arquiteto José Zanine Caldas, mudou-se para Nova Viçosa, na Bahia. O plano dessa geração que adotava as praias de reprodução das baleias Jubarte era estabelecer uma capital cultural em um espaço de natureza intocada. A região nunca se tornou um pólo intelectual, como queriam artistas como Chico Buarque de Holanda e Dorival Caymmi. Mas Zanine – que foi outro mestre na lida com a madeira – construiu ali, sobre um pequizeiro com quase três metros de diâmetro, a casa elevada de onde Krajcberg desce todos os dias, desde então, logo que o sol nasce, com o inseparável boné lhe cobrindo a cabeça, para fotografar a vegetação local e trabalhar nos troncos queimados, atualmente presentes em importantes coleções de arte do mundo.

O artista tem hoje centros culturais dedicados ao seu trabalho, como o Espace Krajcberg, em Paris, apoiado pelos franceses Fundo Cultural do Ermitage e Fundação Yves Rocher. Mas reservou para o grande espaço que ocupa agora no Pavilhão de Oscar Ninemeyer, na Bienal, a primeira aparição de sua série mais recente, um conjunto de cerca de 80 peças em madeira. Montadas como uma floresta de hastes verticais, as esculturas contracenam com a vegetação do Parque do Ibirapuera, da qual se separa por uma grande janela de vidro. A série foi apelidada Coqueiros por seu criador, que acompanhou cada detalhe da montagem em uma rara saída do sítio baiano erguido entre o mangue e o mar.

“Krajcberg é um nome incontornável quando se trata da questão ambiental na arte”, diz Julia Rebouças, uma das curadoras desta edição do evento, que tem como tema o slogan “Incerteza Viva” e fica em cartaz até o dia 11 de dezembro, na capital paulista. “Mas o destaque de sua presença se fez necessário por razões anteriores. Ele é parte da pesquisa conceitual para a curadoria da exposição. Seu trabalho é único e conjuga matéria prima, atitude política e motivação espiritual. Essa coerência entre vida e obra está na base e é a busca de muitos outros trabalhos que vieram depois dele”, diz Julia. Além de Coqueiros, A Bienal exibe ainda Bailarinas e Gordinhos (Krajcberg não dá nomes para suas obras, mas apelidos), dois conjuntos mais antigos do escultor. “A energia e a assertividade dele na montagem de suas obras é algo bem impressionante”, conta a curadora. Um fato curioso é que um dos primeiros trabalhos remunerados do imigrante no Brasil foi como montador da Bienal, nos anos 1950.Um de seus grandes amigos, Walter Moreira Salles filmou em 1987 o documentário Krajcberg, o Poeta dos Vestígios, premiado e visto dentro e fora do Brasil. No filme, o cotidiano em Nova Viçosa, o grande conhecimento do local e a lida com os 12 ajudantes que hoje mantém em seu ateliê a céu aberto mostram um profissional obstinado e profundamente consciente de seu papel no planeta. “Um rebelde inclusive contra a própria dor”, disse à época o cineasta. O nonagenário já deu muita dor de cabeça para as indústrias madeireira e de mineração. A denúncia feita pelas suas obras confeccionadas a partir de espécies derrubadas ou queimadas ilegalmente como o cedro é apenas parte de seu ativismo. Em Minas Gerais, denunciou os abusos das mineradoras para organismos internacionais. No Mato Grosso, na Amazônia e na Bahia investigou por conta própria desmatamentos e algumas vezes chegou a impedir derrubadas se colocando em frente a tratores e batendo boca com madeireiros.

A vinda rápida para São Paulo teve uma razão maior que o acompanhamento da montagem de suas séries. Durante a sua estadia, o artista deixou para a reunião de mais de 300 artistas e curadores do mundo inteiro e para todos aqueles que passarem pelo Pavilhão da Bienal, um vídeo com seu grito de urgência na mudança da atitude em relação à natureza. Para Krajceberg, as agressões ao ambiente natural não diferem da violência contra a vida humana. “Esse tronco queimado sou eu”, costuma repetir.

TAGS: Arte, Ecologia, Frans Krajcberg