As batalhas agrícolas de Trump

Presidente americano compra brigas que desagradam seu enorme eleitorado rural


Edição 3 - 13.11.17

Por Núria Saldanha, de Washington

Nas áreas rurais dos Estados Unidos, dois a cada três eleitores votaram em Donald Trump para presidente do país em novembro do ano passado. Com mais de 400 empresas, negócios envolvendo 25 países e uma fortuna de quase US$ 4 bilhões, o magnata serviu como inspiração para os empresários do campo. Mas foi com as promessas de reformas fiscais e regulatórias que Trump assegurou os votos de um setor que busca alternativas para reverter o ciclo de quatro anos seguidos de quedas na renda.

Pouco mais de dois meses após ele assumir o cargo, porém, os produtores rurais não conseguem esconder o descontentamento. Em um mundo em que barreiras e fronteiras pareciam desaparecer, Trump chega com o recado de que a globalização não foi boa para os Estados Unidos e começa a fechar portas para outros países. Nos seus primeiros dias no comando da maior economia do mundo, o novo presidente comprou brigas, tomou medidas e posições políticas que podem atrapalhar as vendas dos produtos agrícolas americanos no mercado internacional e pressionar ainda mais as margens do setor, transformado em um verdadeiro campo de batalhas políticas, econômicas e diplomáticas.

Uma das primeiras ações de Trump foi cancelar a participação do país no Tratado Transpacífico de Comércio Livre (TPP). Considerado o maior acordo comercial do mundo, o TPP reuniu economias que juntas representam 40% do PIB mundial para estabelecer relações comerciais com tarifas menores entre 12 países banhados pelo Oceano Pacífico. Proposto e assinado pelo ex-presidente Barack Obama em novembro de 2015, o tratado era a grande aposta dos produtores rurais para abrir mais mercados mundo afora. Mas o atual presidente não considerou os apelos de seus eleitores. “Trump tem mudado de maneira muito radical o rumo da política comercial americana”, diz Antonio Josino Meirelles, diretor executivo do Brazil Industries Coalition (BIC). “O setor agrícola dos Estados Unidos vinha contando com os acordos que estavam sendo estabelecidos no âmbito da parceria transpacífica em termos de estratégia de crescimento e ampliação de mercado.”

Assim, rapidamente, as atitudes de Trump trouxeram uma mudança na perspectiva do agronegócio em relação ao comércio internacional. E o setor já contabiliza os prejuízos. Segundo a federação agrícola americana (American Farm Bureau Federation – AFBF), com o TPP a renda agrícola anual poderia aumentar em US$ 4,4 bilhões, gerando mais de 40 mil postos de trabalho. A entidade diz ainda que o acordo aumentaria significativamente o comércio de produtos como carnes, frutas, legumes, soja, laticínios, arroz e algodão.

O cancelamento da participação dos Estados Unidos no acordo não é, no entanto, nenhuma novidade para quem acompanhou a batalha eleitoral no país. Diretora da Associação Rural de Mercer, município do estado de Ohio com pouco mais de 1.200 produtores de grãos e pecuaristas, Jill Smith diz que não ficou surpresa com a decisão de Trump de retirar os Estados Unidos do TPP.  Ela lembra, porém, que “as exportações são uma parte muito importante da indústria agrícola americana” – cerca de 25% da produção tem como destino outros países. O TPP nos ajudaria a assegurar certos mercados no exterior, como o tão cobiçado Japão, onde a demanda por soja é alta”. diz ela.

Para cumprir uma de suas principais promessas de campanha, Trump então iniciou uma batalha contra a imigração, e o primeiro adversário escolhido foi o México. O país vizinho é a principal origem dos imigrantes que chegam ao solo americano. Estima-se que 11,4 milhões de pessoas, entre imigrantes legais e aqueles em situação irregular, vivam nos Estados Unidos atualmente, o que representa 28% da população estrangeira no país. A solução para o presidente é construir um muro de 12 metros de altura e cerca de 3 mil quilômetros na fronteira e cobrar dos mexicanos a conta da obra – que pode chegar a US$ 15 bilhões, segundo o líder do senado Mitch McConnell. As declarações do americano pela imprensa e pela rede social Twitter irritaram o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, que cancelou uma reunião marcada com Trump, azedando a relação entre os dois países.

O problema é que o país latino-americano é o terceiro principal destino das exportações agrícolas dos Estados Unidos. Segundo o USDA, o Departamento de Agricultura americano, nos últimos dez anos as vendas do agronegócio para o México cresceram 62%. Em 2015, foram quase US$ 18 bilhões, e os principais produtos comercializados são milho, soja, laticínios, além de carnes suína e bovina. O que estimulou a ampliação dos negócios entre os dois países, dizem os especialistas em comércio internacional, foi o Nafta. Mas o tratado de livre-comércio em vigor desde 1994, que derrubou as barreiras alfandegárias e custos comerciais entre Estados Unidos, México e Canadá, também foi colocado na berlinda. Trump diz que o Nafta é uma catástrofe para os Estados Unidos, pois o país tem um saldo negativo de mais de US$ 60 bilhões na balança com o México, e ameaça impor tarifas de 20% sobre os produtos mexicanos. Em retaliação, o país vizinho está se armando para taxar as importações do milho e organizou missões comerciais para buscar novos fornecedores em países como o Brasil e a Argentina. Em 2015, o México comprou US$ 2,3 bilhões de dólares em milho dos EUA.

O ímpeto protecionista e belicoso de Trump avançou até mesmo para as fronteiras com o Canadá, o principal parceiro agrícola dos Estados Unidos. Em 2015, o vizinho do Norte adquiriu mais de US$ 20 bilhões em produtos do agronegócio e da indústria alimentícia, especialmente legumes, frutas frescas e laticínios. A pedido de associações nacionais de produtores de leite, Trump resolveu peitar os canadenses e quer renegociar as exportações do produto para lá. É que o Canadá trabalha com uma política de gestão de oferta no mercado interno, dando incentivos e até descontos para que processadores de queijo comprem leite local e taxa em até 300% importações de laticínios acima da cota. Os produtores americanos dizem que a política que entrou em vigor no ano passado já impediu de exportar para lá US$ 150 milhões de leite não filtrado.

QUEM VAI FAZER O TRABALHO?

Pela fronteira com o México entram também imigrantes que formam a força de trabalho nas fazendas americanas. Uma pesquisa do Departamento do Trabalho dos EUA mostrou que em 2016 mais de 70% dos trabalhadores rurais eram imigrantes, 64% deles do México e quase 30% de Porto Rico. São eles os responsáveis pela colheita de legumes na Califórnia, cítricos na Flórida, verduras em Michigan e até a construção de cercas e manejo de animais em ranchos do Texas. Enquanto grande parte da economia agrícola já está mecanizada, verduras, legumes, frutas e laticínios ainda são fortemente dependentes do trabalho humano. O problema é que esta mão de obra mais barata e tão necessária no campo muitas vezes não tem autorização para trabalhar em solo americano.

O setor agrícola já vinha enfrentando escassez de trabalhadores devido à intensificação das deportações por Barack Obama, que expulsou de lá 2,7 milhões de imigrantes ilegais, e ao declínio do movimento migratório de mexicanos ao país (entre 2005 e 2015, o número de mexicanos nos EUA caiu 9%, de acordo com o Pew Research). A federação agrícola americana estima que mais da metade dos trabalhadores agrícolas sejam ilegais. É por isso que o muro de Trump e outras políticas de restrição a estrangeiros preocupa tanto o setor.

“Se não conseguirmos a mão de obra para colher a nossa produção aqui nos Estados Unidos, vamos ter de importar mais frutas, legumes e commodities de outros países”, disse Zippy Duvall, presidente da AFBF, durante o Agricultural Outlook Forum realizado pelo USDA na última semana de fevereiro em Washington. “Nós apoiamos a proteção das nossas fronteiras, mas não podemos simplesmente fazer uma imposição dessas e deixar nossos fazendeiros segurando o fardo. Nós também precisamos de um caminho para os trabalhadores que estão em nossas fazendas há anos. Necessitamos conhecer o caminho e ajustar a situação deles para que fiquem aqui nos ajudando a alimentar a América com comida americana.”

As reclamações contra as medidas de Trump vieram de todos os lados. A indústria de carnes, em que os imigrantes detêm 35% dos mais de 440 mil postos de abate e processamento, conta com mão de obra de refugiados, especialmente do Oriente Médio e da África, e pode ficar desfalcada com a suspensão de programas de refúgio e com medidas que barram imigrantes. Maior companhia americana do setor, a Tyson Foods, por exemplo, emprega centenas de somalis por meio de um programa de recebimento de refugiados em parceria com a ONU e o governo americano. A Somália estava entre os sete países de maioria muçulmana que foram temporariamente impedidos de entrar nos Estados Unidos por Trump. 

A lei da oferta e demanda é clara e funciona: quando a oferta de serviços é restrita, o preço sobe. Na última década o salário do trabalhador rural americano subiu 36%, quase 10% a mais do que o aumento recebido pelos trabalhadores de outros setores da economia. Um estudo do USDA publicado em 2012 mostrou que ao cortar pela metade a força de trabalho não autorizada, o custo da mão de obra pode ficar 40% mais alto. Uma notícia nada animadora para um setor que está lutando contra as perdas. Desde 2013, os preços agrícolas caíram 40% e o impacto na renda dos produtores no período chega a 50%. E não há sinais de recuperação para 2017, o Departamento de Agricultura estima que os lucros agrícolas vão cair 8,7%. Este é o quarto ano consecutivo de perdas, algo que não acontecia desde a década de 1970. “Os preços das commodities estão obviamente muito mais baixos, os rendimentos agrícolas estão baixos. Os fazendeiros estão segurando suas reservas de dinheiro e não estão comprando novos equipamentos”, diz Duvall, da AFBF.

Nessa batalha, o ataque dos produtores provocou um primeiro recuo de Trump. O presidente americano até parece estar revendo suas ideias em relação a imigrantes e já considera projetos de imigração com possibilidade de legalização de estrangeiros em solo americano. Em seu primeiro discurso ao Congresso, transmitido em rede nacional, Trump afirmou, no entanto, que não vai apoiar uma política de imigração de “trabalhadores de mão de obra barata”, mas sim adotar um sistema baseado em meritocracia, o que não resolveria o suprimento de mão de obra para colheitas.

Enquanto isso, algumas demandas antigas dos fazendeiros parecem ganhar fôlego – e isso pode abrir outras frentes de conflitos para o presidente. Trump já deu sinais de que vai relaxar as políticas ambientais. O presidente assinou uma ordem executiva exigindo que a Agência de Proteção Ambiental (EPA) reveja os regulamentos sobre o uso da água para se certificar de que eles não estejam prejudicando a economia. A medida pretende reverter uma regra ambiental implementada no governo Barack Obama chamada de “Waters of the United States” (Águas dos Estados Unidos), que determina quais cursos d’água estão sujeitos à Lei de Água Limpa. A legislação original de 1972 dizia que a EPA podia regular as “águas navegáveis”, porém há alguns anos a regra ficou mais dura e passou a abranger 60% dos recursos hídricos do país. “Águas navegáveis agora podem significar qualquer poça ou vala na terra de um fazendeiro”, reclamou Trump durante a assinatura do decreto. Ambientalistas e defensores do regulamento dizem que ele é necessário para garantir água potável no país. Mas os fazendeiros e a indústria alimentícia alegam que a regra vai longe demais, representando um peso no bolso dos produtores, argumento que já convenceu o republicano.

Com a perda de renda e exposição aos preços das commodities, o setor agrícola busca agora pressionar o Congresso nas discussões sobre a nova lei agrícola. A Farm Bill é renovada a cada cinco anos e consolida todos os programas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos em um único documento. As audiências públicas para debater a lei que vai ser aprovada em 2018 começaram e os produtores já engrossaram o tom sobre a necessidade de mais financiamento e subsídios. É que a última versão da lei, aprovada em 2014, teve cortes de US$ 23 bilhões. Os líderes agrícolas sabem que o maior desafio da Farm Bill 2018 será o orçamento e tentam, pelo menos, impedir um novo corte de recursos.

“Eu entendo que é uma visão comum em Washington a de que o custo dos programas agrícolas e outras partes da Farm Bill precisam ser reduzidas novamente, mas os sojicultores não aceitam isso”, disse o presidente da Associação de Sojicultores do Kansas, Lucas Heinen, durante audiência pública sobre a Lei Agrícola. “A agricultura aceitou voluntariamente o corte em 2014, e até agora outros setores não fizeram nenhuma contribuição para reduzir o déficit do país”, complementa.

OPORTUNIDADE PARA O BRASIL

Enquanto uns choram, outros vendem lenço. Maior competidor agrícola dos Estados Unidos, o Brasil pode tirar vantagem do momento turbulento para o seu adversário. O País, que ficou de fora de grandes acordos multilaterais nas últimas duas décadas, tem agora a chance de voltar às mesas de negociações. “A imprevisibilidade do governo Trump é um risco, mas o Brasil tem que aproveitar essas oportunidades de novos fluxos de comércio que vão surgir aí com a ruptura de acordos”, diz João Augusto de Castro Neves, diretor para a América Latina da consultoria Eurasia. “A mudança que vem com o governo Trump de novos acordos bilaterais vai criar para o Brasil a oportunidade de acabar com o atraso da nossa política externa e comercial.”

Para o vice-presidente da BRF na Ásia, Marcos Jank, se Trump aumentar as barreiras no comércio com o México e com a Ásia, isso pode beneficiar o Brasil como fornecedor, especialmente com a venda de grãos e carnes para os dois mercados. “Eu acho que a China também se coloca com força. É o nosso maior cliente, é onde mais cresceram as nossas exportações nos últimos anos. Na verdade, metade das exportações do agro hoje vai para a Ásia.” De qualquer forma, há uma preocupação com o estilo protecionista do novo governo americano. “Se os países começarem a se fechar, a se proteger impondo barreiras comerciais, isso não vai ser bom para ninguém”, diz. “Se o setor agrícola americano conseguir mais subsídios na Farm Bill, isso certamente pode afetar a competitividade dos produtos agrícolas brasileiros no mercado internacional”, alerta Antonio Meirelles, do BIC.

Reportagem publicada na edição 03 de Plant Project (março/abril 2017)

TAGS: Agronegócio, Diplomacia, Donald Trump, Estados Unidos