Uma refeição com o ditador Kim Jong-Un

Um estrangeiro conta os segredos explosivos da “gastronomia” da Coreia do Norte


Edição 6 - 12.10.17

P0r Jamie Fullerton, de Pequim (China)

“Você jamais verá um norte-coreano faltar a uma refeição por vontade própria”, afirma Simon Cockerell. Ele já fez mais de 150 visitas ao “Reino Isolado”, portanto deve saber do que fala. Como gerente-geral da Koryo Tours, especialista em turismo para a Coreia do Norte, Cockerell, que é britânico, tem ido regularmente ao país desde 2002. Como qualquer estrangeiro, as áreas que ele pode visitar são estritamente limitadas. Portanto, o guia e seus turistas devem ser acompanhados sempre por profissionais norte-coreanos. Ainda assim, em suas viagens, mesmo que restritas, ele vem desvendando um lado fascinante da cultura e hábitos alimentares do país.

Simon Cockerell em uma de suas visitas à Coreia do Norte

A população da Coreia do Norte foi devastada pela fome de 1994 a 1998. E, embora o regime ditatorial de Kim Jong-un mantenha os olhos dos forasteiros longe da pobreza do país, grupos de direitos humanos reportam regularmente a escassez de alimentos como apenas um dos problemas que as populações mais pobres se deparam no país mais isolado do mundo. Mesmo na capital, Pyongyang, a cidade da elite norte-coreana, memórias da inanição afetam enormemente a cultura alimentar. “Qual­­­­­quer pessoa com mais de 20 anos ali tem lembranças de passar fome”, afirma Cockerell. “Assim, a comida é muito importante e a cultura é culinária. As pessoas sabem que perder uma refeição é uma extravagância que elas não costumavam fazer, e realmente não o fazem. Há um conceito real de viver a comida.” Cockerell tem percorrido o caminho da alimentação pelo país por 15 anos, adquirindo ensinamentos e postando fotografias no seu perfil na rede Instagram (@simonkoryo). Pedi a ele que falasse sobre as dez coisas mais interessantes que experimentou na Coreia do Norte. Eis seu relato:

NOODLES FRIO COM TRILHA SONORA

Talvez a refeição mais comum em Pyongyang, esse prato tem uma forte tradição cultural.
“Trata-se do prato clássico norte-coreano, chamado de naengmyeon na Coreia. Há uma canção clássica sobre isso: [Ele canta] “Naengmyeon, naengmyeon, Pyongyang naengmyeon!”. A música é uma forma de propaganda para mencionar que a comida dá às pessoas um senso de orgulho nacional, e também demonstra segurança na comida. Os noodles frios de Pyongyang são feitos de trigo-sarraceno. Eles são pretos e servidos em um caldo frio e, normalmente, ovo em pó, algumas fatias de carne e molho apimentado. Sua aparência não é boa, mas é saboroso. Noodles compridos significam vida longa ou um casamento duradouro. Em uma cerimônia de casamento, todas as pessoas são servidas com noodles frios, e a possibilidade de recusa seria considerada um gesto bastante grosseiro. ”

O KIMCHI, RECONHECIDO PELA ONU

A maioria dos norte-coreanos é obcecada pelo kimchi à base de repolho, com a versão apimentada do país agora reconhecida em uma lista de patrimônios culturais das Nações Unidas. “Se for possível, os norte-coreanos comem kimchi em todas as refeições. O prato pode ser acondicionado, pois é feito de ingredientes frios – uma maneira tradicional de refrigeração é enterrá-lo no solo. O kimchi norte-coreano normalmente é mais apimentado que o kimchi sul-coreano. Minha empresa recebeu muitos coreanos na China. Ficar sem kimchi durante várias refeições os deixava mal-humorados.

Eu conheci alguns coreanos que trabalharam nas Ilhas Maurício. Um deles me disse que lá era um paraíso por ter frutas e carne barata e um clima agradável, mas a pior coisa sobre o local é que o preço do repolho era muito alto e eles gastavam muito com o vegetal. Não comer repolho é uma coisa inconcebível para um norte-coreano.”

CARNE DE CACHORRO COMO UMA “IGUARIA”

É um item de alimentação coreana um tanto clichê, porém a carne de cachorro só é consumida em ocasiões especiais no Norte.

“Eles não chamam de ‘carne de cachorro’ na Coreia do Norte, mas de ‘carne doce’. Pode ser um eufemismo, mas, de todo modo, não é vergonha comê-la no país. Trata-se de uma iguaria e as pessoas consomem no máximo uma ou duas vezes por ano, se puderem pagar por isso. Existe, logicamente, um grande número de pessoas que não têm essa opção e raramente comerão esse tipo de carne. Na maioria das vezes, o que eles oferecem para os turistas é sopa de carne de cachorro. Ela em geral é picante e não tem muita carne. Há poucos restaurantes em Pyongyang especializados em iguarias como costelas de cachorro e bife de cachorro. O sabor não é muito bom, mas, se feito da maneira correta, tudo bem. É bastante almiscarada e pode ser levemente indigesta. Eu achei dura, mas já experimentei carne de cachorro macia. A cultura de cães como animais domésticos não é comum na Coreia do Norte. Há cães de guarda e cães de fazenda, mas você tem que pertencer à classe média para poder ter um animal de estimação.”

HAMBÚRGUER DA KORYO: “A PIOR COMIDA DE TODAS?”

Algumas vezes descrita com frases como “a pior coisa que eu já comi” pelos usuários de mídias sociais ocidentais, o hambúrguer servido na Air Koryo, companhia aérea nacional norte-coreana, transformou-se em um cult.

“A única vez que eu vi alguém passar mal em avião foi em um voo da Air Koryo. Achei que era por ele nunca ter voado antes, e não por ter ingerido um hambúrguer da Koryo. Dito isso, o fato é que o hambúrguer não é muito bom, além de não ficar claro de qual tipo de carne ele é feito. Provavelmente, não é de cachorro. Ninguém voa na Air Koryo pela comida, mas eu possivelmente já comi uns 30 deles até hoje — mas somente quando estava com muita fome. A maioria dos norte-coreanos nunca viajou de avião. Todos que o fizeram voaram pela Air Koryo. A opção vegetariana da companhia aérea é ‘Não coma o hambúrguer’.”

CERVEJA COMPRADA COM VOUCHERS DE RACIONAMENTO

Em 2000, a Coreia do Norte importou uma cervejaria inteira, a Ushers, de Trowbridge, no Reino Unido, para produzir a Taedonggang, hoje a cerveja mais popular no país.“Já aconteceu de uma pessoa ser presa na Coreia do Sul por afirmar publicamente que a cerveja norte-coreana era melhor que a cerveja sul-coreana, o que, definitivamente, é uma verdade. A cerveja sul-coreana é horrível, e isso não é difícil de comprovar. A Taedonggang, nome de um rio que atravessa Pyongyang, agora é a cerveja mais conhecida na Coreia do Norte. Há um racionamento de cerveja no país – os homens recebem vouchers mensais. Não é necessariamente uma política nacional, mas é o que ocorre em Pyongyang. É possível comprar mais. A ‘ração’ significa apenas que você obteve vouchers, em vez de seu consumo ser limitado.

Se você quiser beber uma cerveja Taedonggang, pode ir a um bar requintado e comprar uma caneca por dois ou três dólares, ou ir a um local mais simples e adquiri-la em troca de um voucher ou pagar 25 centavos. A maioria dos estabelecimentos que oferecem cerveja tem mesas baixas, em que você normalmente poderia se sentar, mas sem cadeiras. Tal qual no Ocidente, você pode beber e se divertir nos bares. Virar canecas, comprar rodadas, embriagar-se, cantar e, ocasionalmente, derramar seu copo. Piadas até são permitidas, mas nada de humor político.

As cervejas Taedonggang são identificadas por números: a Um é feita de cevada, água e lúpulo e é bem gostosa. A Dois é a mais comum, com cevada, água, lúpulo e um pouco de arroz. A Três é uma mistura de 50% de cevada e 50% de arroz. A Quatro tem mais arroz, e a Cinco é feita de arroz. Ela é repulsiva. Uma vez eu estava no maior bar da capital, chamado Kyonghungwan, com uma equipe de TV belga. O grupo queria filmar as pessoas, por isso nós fomos a uma mesa onde a maioria eram mulheres. Duas delas falavam inglês. Elas disseram que eram obstetras e ginecologistas em um hospital. Clássicas profissionais da saúde: elas tinham acabado seu turno de 16-18 horas e ali já estavam ficando mais soltas. Eram as pessoas mais embriagadas, faziam muitos brindes. A maioria desses locais é frequentada por homens. Mulheres até vão a bares, mas jamais sozinhas.”

SOJU E MAKOLLI “RÚSTICO”

O soju, barato e abundante vinho de arroz, é a bebida mais popular em Pyongyang, enquanto o makolli domina no interior.

“É difícil fazer uma refeição à noite na Coreia do Norte sem bebida alcoólica. Se você chegar atrasado a um jantar, normalmente beberá três goles de soju. Essa é uma ‘punição’ comum. Soju é uma bebida de arroz com 18-25% de teor alcoólico e é mais acre na Coreia do Norte que na Coreia do Sul. Não é tão horrível quanto o baijiu [a bebida mais popular da China], mas não há nada comparável no mundo.

Makolli é uma bebida feita com o mesmo processo do soju; não é alcoólica e tem uma aparência leitosa. É gostosa, mas na Coreia do Norte é uma bebida pouco sofisticada, feita do que sobrou de alguma coisa melhor. Mas se você for para Seul, poderá experimentar todos os tipos de sabores de makolli em bares hipsters. Para os coreanos, é como uma bebida de caipiras: uma coisa tomada por seus primos do interior, não uma bebida requintada. Você pode beber makolli em Pyongyang, mas as pessoas acham engraçado se você comprá-la. Mesmo lá, é uma coisa ultrapassada. ”

KHC: BATATA FRITA DE LAMBER OS DEDOS

Se a Kentucky Fried Chicken fizesse batatas fritas em vez de frango, elas se pareceriam com isso.

“A KHC, uma barraca próxima de um estande de tiros e de uma pista de boliche, vende batatas fritas. Como ninguém na Coreia do Norte sabe o que é KFC, não é preciso se preocupar com plágio. As batatas fritas têm gosto de… batatas fritas. Mas sem o sal.

Por conta da falta de reconhecimento de marcas, não existem muitas franquias de alimentos na Coreia do Norte. Na Rússia, frequentemente vemos os Arcos Dourados de cabeça para baixo, imediatamente reconhecidos por nós. Mas em Pyongyang eles acham que um W grande amarelo não significa nada.

Eu vi por lá algumas xícaras da rede Costa Coffee, porém não estava em um café da marca, e sim em um restaurante comum. Elas provavelmente foram obtidas de um varejista. Nenhum norte-coreano foi lá e pensou, ‘Ooh, eles estão servindo Costa Coffee aqui!’.Eles têm produção local de batatas fritas, mas você não vê muitas pessoas caminhando e saboreando-as. Se você pedi-las em um bar, eles sempre cortarão o pacote com tesouras e as colocarão no prato para dar uma imagem de algo sofisticado. Para petiscar, as pessoas preferem lulas secas e principalmente peixe. Lula seca com mostarda e molho de soja vai bem com cerveja.”

FAST-FOOD OCIDENTAL (COM UMA LONGA ESPERA)

Embora as políticas norte-coreanas sejam antiestrangeiros ao extremo, é surpreendentemente fácil encontrar opções de fast-food ocidental em Pyongyang.

“Há mais restaurantes italianos do que restaurantes chineses em Pyongyang: três. O primeiro local a servir pizza foi o café Pyolmuri. Então, por volta de 2008, foi aberto um restaurante italiano que foi chamado de… Restaurante Italiano. O chef coreano foi treinado na Itália. O local foi inaugurado com apoio estrangeiro e de fato era muito bom.

Há restaurantes de hambúrguer também. Eles não têm força de mercado em Pyongyang – uma vez abriram uma hamburgueria, mas ninguém a frequentou, então acabou sendo fechada. É fácil para as pessoas verem tudo que é feito na Coreia do Norte como algo produzido ‘pela’ Coreia do Norte. Quando alguém lança um restaurante de hambúrguer, sempre foi ‘Kim Jong-un que abriu um restaurante de hambúrguer’. Mas a verdade é que deve ser um empreendimento de comerciantes motivados por lucros.

Nessas lanchonetes de fast-food o alimento não fica pronto quando você chega lá. Eles possuem armários atrás dos balcões, mas não há nada neles. Uma longa espera para comer é comum na Coreia do Norte. Felizmente, a maioria das pessoas em Pyongyang tem duas horas de almoço.

Você pode encontrar hambúrgueres em toda a Pyongyang hoje em dia. Se tiver dinheiro, poderá abrir qualquer negócio na cidade, embora provavelmente não possa abrir um local chamado Uncle Sam’s All-American Steak House. Isso pode ser um passo muito ousado.”

 

SUSHI DOS ANTIGOS OPRESSORES

Os norte-coreanos são historicamente mais dispostos a odiar japoneses que americanos, mas em Pyongyang muitos residentes adoram sushi.

“Qual país a Coreia do Norte odeia mais que a América? O Japão. Apesar disso, Pyongyang tem dois restaurantes de estilo japonês clássico, com esteiras para sushis. Todas as pessoas que conhecem os estabelecimentos sabem que servem comida japonesa. Eles não negam isso, mas também não vestem os chefs com trajes típicos japoneses ou cumprimentam os clientes no estilo japonês. Os pratos não são chamados de sushi de Sol Nascente de Hirohito ou algo semelhante.

O número de pessoas em Pyongyang que pode pagar por eles, hoje em dia, provavelmente é de dezenas de milhares, portanto há mercado para isso. E é delicioso.”

MOLUSCOS COM GASOLINA

A melhor maneira de cozinhar moluscos? Mergulhe-os em gasolina e deixe a chama subir.

“Na costa oeste, os norte-coreanos cozinham moluscos em uma chapa de metal. Na costa leste eles mergulham em gasolina e os deixam flambar. Então colocam mais gasolina até ficar pronto. Eles os abrem esmagando-os no chão, como os macacos no início de 2001, Uma Odisseia no Espaço. Eles sempre deixam o motorista [de um grupo de turistas] cozinhar, como se o fato de ele dirigir fizesse dele a única pessoa que soubesse como manusear esse material inflamável extremamente perigoso.

Os moluscos cheiram a gasolina e têm gosto do combustível. Às vezes você pega um que está parcialmente fechado, com gasolina dentro. Essa é a regra do jogo.”

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