O Waze da lavoura

Startup israelense quer levar para fazendas sistemas inteligentes de predição de clima e pragas


Edição 2 - 16.10.17

Por Luiz Fernando Sá

Vida de fundador de startups tem dessas coisas.  O casamento acontece, mas os desafios para construir a nova empresa e coloca-la de pé adiam a lua de mel. O israelense Ofir Schlam até que conseguiu uns dias na praia com a esposa, mais de um ano após a cerimônia de núpcias. Mas antes de chegar lá levou-a para um nada romântico tour por lavouras mato-grossenses e escritórios paulistanos. O Brasil, afinal, é o mercado preferencial para a Taranis, a companhia que Schlam criou ao lado de três sócios com uma ambiciosa proposta de repetir, no agronegócio, o sucesso que conterrâneos tiveram nas ruas das principais cidades do mundo. “Temos tecnologia para sermos o Waze da agricultura”, disse à PLANT pouco antes de embarcar com a mulher rumo a dias de sol e romance.

Pode parecer pretensioso, mas o fato é que a Taranis já despertou a atenção de alguns investidores com históricos de grandes colheitas em suas inserções pelo terreno das startups. A companhia teve, logo de início, uma injeção financeira de dois dos principais fundos em ação no fértil ecossistema de empreendedorismo tecnológico de Israel (que, em termos de recursos e empresas inovadoras, perde apenas para o americano): o OurCrowd, maior do país, e o Eshbol Ventures. E depois, atraiu nomes como Microsoft e Marc Benioff, fundador do SalesForce e um dos mais astutos capitalistas de risco dos Estados Unidos. O que enche os olhos dessa gente é menos a expertise agronômica e mais a intimidade com tecnologias desruptivas como o machine learning – a capacidade dos softwares de aprender e ficar dada vez mais preciso à medida em que mais dados são incorporados ao seus sistemas – dos nerds israelenses. A Taranis (assim como o Waze e o Google) afirma que é assim que seu produto funciona para ajudar o agricultor a prever, com inédita antecedência e precisão, fenômenos climáticos e a ocorrência de pragas nas lavouras.

Schlam (à dir.), com a engenheira agrônoma Franciele Burman e Jorge Winiar,, sócio da Taranis na Argentina, em visita ao Brasil

Schlam traz em sua trajetória a moderna imagem do Estado de Israel. Nascido em uma família de agricultores, desde cedo conviveu com as tecnologias de irrigação que transformaram áreas desérticas do país em oásis de produção. Ainda adolescente, envolveu-se com a emergente indústria de produção de softwares e acabou desenvolvendo programas para a área de segurança. Tornou-se líderes dessa área no gabinete do primeiro-ministro israelense até que, em 2014, deixou o governo para unir suas duas especialidades. Em sociedade com outros três jovens talentosos – Eli Bukchin, meteorologista que desenvolveu sistemas de previsão climática para as forças armadas de Israel; Asaf Horvitz, programador e especialista em engenharia de software e big data; e Ayal Karmi, criador de algoritmos para  detecção de fraudes no Banco de Israel -, lançou-se na jornada de, como diz, “aplicar inteligência ao agribusiness”.

O primeiro foco do time foi usar modelos matemáticos combinados a análise de imagens de satélite e dados coletados no solo para estabelecer sistemas de previsão meteorológica. Nessa área, porém, viram-se diante de uma infinidade de concorrentes, alguns de peso como a The Climate Corporation, adquirida pela gigante Monsanto. Tinham na mão patentes únicas, que permitiam antecipar fenômenos climáticos com antecedência de uma semana para áreas de até 1,5 km. Mas entenderam que precisavam buscar novos diferenciais. E os encontraram em uma nova área de estudo, a fitopatologia. Com a alta resolução das imagens que conseguiam obter e a compreensão de que, para se propagarem, as principais pragas que infestam as lavouras precisam de condições específicas de temperatura e umidade, passaram a desenhar modelos preditivos que usavam os dados que recolhiam para antecipar possíveis infestações. Assim, poderiam gerar a seus futuros clientes, em aplicativos embarcados nos celulares, alertas precisos de onde e quando determinada praga atacaria as lavouras, permitindo ações preventivas localizadas e, por consequência, evitando danos e reduzindo custos de produção.

Tela da plataforma da Taranis

Os primeiros testes foram feitos, com sucesso, em pomares de peras e maçãs em Israel. Ao final do primeiro ano de desenvolvimento, Schlam foi em busca dos grandes mercados. Rússia, Estados Unidos, Argentina e Brasil entraram em sua rota de viagens, buscando agricultores dispostos a testar a tecnologia da Taranis em culturas com maior volume e área plantada, como soja e trigo. “Saí pelo mundo em busca das melhores opiniões”, conta. “Mostramos que, através da imagem e, assim como acontece no Waze, dos dados que os próprios produtores inseriam no sistema, a plataforma ia ficando melhor com o tempo, aumentando sua capacidade de analisar eventos e prever ocorrências futuras”. Outro trunfo do sistema, segundo Schlam, era a capacidade de integrar informações de sensores e softwares que os produtores já possuíam, independente do fabricante.

O desenvolvimento da plataforma da Taranis em meio ao ambiente tecnológico/militar israelense permitiu avanços bem mais rápidos ao grupo do que se estivessem em outros pontos do globo. A integração de satélites, por exemplo, é uma especialidade da região. Com a ajuda deles, Schlam ajudou a criar um escudo virtual antimísseis para o país. Hoje, essa mesma expertise permite que o seu sistema agrícola integre informações vindas de mais de 100 satélites orbitando ao redor da terra – a maioria de seus concorrentes trabalham com menos de 30 – gerando resoluções maiores para imagens de áreas cada vez menores. Recentemente, a Taranis incorporou um grupo de engenheiros aeronáuticos com mais de dez anos de experiência no governo local. Sua missão foi incorporar tecnologias utilizadas na produção de mísseis e caças no desenvolvimento de câmeras capazes de produzir fotos de altíssima resolução mesmo quando instaladas em aviões que sobrevoam as lavouras em alta velocidade.

A ideia é substituir imagens feitas em baixa velocidade e altitude através de drones por fotos feitas por câmeras instaladas, por exemplo, em aviões de pulverização, que cobrem áreas maiores em menor tempo. O novo sistema, já em testes, permite ver detalhes como insetos ou problemas morfológicos nas folhas de uma lavoura. “Fazemos duas fotos por segundo com resolução para 0,5 milímetro”, afirma Schlam. Com esse arsenal nas mãos, o exército AgTech de Israel tem conquistado territórios importantes em nossas lavouras. Representada no Brasil pelo executivo Rodrigo Iafelice dos Santos, ex-Agrenco e atual CEO da consultoria Ennexas, a companhia já fechou importantes contratos no Mato Grosso e deve, pelas previsões de Schlam, monitorar 2 milhões de hactares em 2017. “Nosso objetivo é entregar ao produtor e aos seus principais auxiliares informações antecipadas para tomarem as decisões e, assim, qualificarem a gestão das propriedades e aumentarem a rentabilidade das lavouras”, afirma Schlam. Nessa batalha, sabem bem os agricultores, jamais pode haver trégua. Talvez apenas uma bem rápida, para a lua de mel.

Reportagem publicada na edição #2 de PLANT PROJECT (jan/fev 2017)

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