Lucas das notas verdes

Primeira usina de etanol de milho do Brasil promove a terceira onda de desenvolvimento no MT

“Se nossa floresta tem mesmo valor para o mundo, por que o Brasil não é reconhecido e recompensado como grande guardião desses recursos?”

Caio Penido, ativista agroambiental e empresário, Top Farmer Sustentabilidade 2018


Edição 6 - 12.10.17

Companhia Aérea Oficial

Por Marianna Peres, de Lucas do Rio Verde

Uma cerimônia, no dia 11 de agosto passado, agitou o interior do País. Vista como um marco, capaz de iniciar uma nova era do agronegócio nacional, a inauguração da primeira usina do Brasil a produzir etanol exclusivamente a partir do milho significou bem mais que a injeção, na economia de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, dos R$ 450 milhões investidos pela F&S Bioenergia na construção da planta. O evento, prestigiado pelo presidente da República, Michel Temer – que cumpriu sua primeira agenda em Mato Grosso –, lotou a rede hoteleira da cidade, formada por pelo menos 30 hotéis, e congestionou os acessos à usina, localizada em plena rodovia MT-449, mais conhecida localmente como Rodovia da Mudança. Um nome sugestivo. A partir dali, vislumbra-se novas perspectivas de crescimento para a região, nacionalmente famosa pela pujança e pela riqueza trazidas pelas agroindústrias.

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A usina mostra, na prática, que é possível extrair do milho mais valor do que se obtinha até então. Ali, além do etanol, serão produzidos farelos de alto valor proteico, que irão fomentar a atividade de confinamento pecuário nas imediações, e também energia, cujo excesso – a usina é autossustentável – será comercializado para o Sistema Integrado Nacional (SIN). O investimento tem ainda o poder de reafirmar uma vocação. Lucas do Rio Verde, município localizado a 360 quilômetros de Cuiabá, no Médio Norte mato-grossense, tem apenas 29 anos de emancipação, mas possui uma espécie de ímã de atração de agroindústrias. Em área e em produção agrícola é menor que as vizinhas Sorriso (município que detém a maior área mundial destinada à soja, com 600 mil hectares anuais, e logo será também o maior produtor de milho do País) e Sapezal. Com 75 mil habitantes, bem planejada, com ruas e avenidas largas, sinalizadas e limpas, a cidade se revela uma cidade “metida a besta”, na melhor expressão da sentença. Quer tudo que há de melhor e consegue isso por meio da união entre sociedade e o poder público. Orgulha-se de exibir o segundo melhor IDH do estado e quer conquistar definitivamente o título de “Capital Nacional da Agroindústria”.

Planta da F&S Bioenergia: investimento histórico chega a R$ 450 milhões

“Lucas está próxima de atingir seu terceiro boom de desenvolvimento”, afirma Fábio Ricardo Raabe, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico. “Concretizada essa expectativa e contabilizando investimentos em infraestrutura, será, em menos de uma década, uma cidade de cerca de 100 mil habitantes e estamos preparados para essa expansão.” A meta já está contemplada no Plano Diretor do Município. Basta as coisas seguirem o rumo e a direção já tomados, sempre com a agroindústria como carro–chefe. O perfil da economia está calcado no agronegócio, porém, trabalhado a partir da transformação que agrega valor à produção primária. “Mas não fugimos do agronegócio e queremos continuar assim, ampliando o processamento de commodities e atraindo cada vez mais investimentos para essa transformação”, reforça o prefeito, Luiz Binotti.

O discurso está pronto e será testado mundo afora. Binotti antecipou a PLANT que a prefeitura inicia agora um projeto de visitação a feiras, inclusive fora do País, para apresentar a cidade e mostrar seu potencial, buscar empresas e “tornar real o sonho de transformar Lucas na Capital Nacional da Agroindústria”. Na vitrine do município toda a região aparece. Binotti não perde a oportunidade de dizer que, em um raio de 150 quilômetros no entorno da cidade, a região oferta cerca de 8 milhões de toneladas de soja e 10 milhões de toneladas de milho. “E todo esse volume vindo do campo acaba sendo processado aqui em Lucas, o que gera riqueza ao município, renda, oportunidades de emprego e acaba atraindo mais e mais investimentos.”

A PRIMEIRA ONDA

Lucas do Rio Verde se move em ritmo alucinante. O primeiro boom da economia local tem apenas dez anos. Seu marco zero foi a chegada de uma unidade industrial da BRF, em 2007. O empreendimento consolidou a verticalização da produção local ao fomentar e estimular a criação de aves e suínos, fazendo valer a expressão do mato-grossense de “transformar a proteína vegetal em proteína animal” – ou então, deixar de exportar grãos para agregar valor com a venda de carnes.

Esse momento está imortalizado na cidade. Uma estátua gigante, de 10 metros de altura, construída em concreto armado foi inaugurada em 2015 para comemorar a grande produção de aves — Lucas do Rio Verde, Tapurah, Ipiranga do Norte e parte de Sorriso produzem mais de 113 milhões de aves por ano. Toda a produção é abatida na planta da BRF em Lucas. Por dia, são processadas mais de 300 mil aves, que abastecem parte do mercado nacional e ainda o mercado externo, como Japão, Oriente Médio e América Latina.

A “Preciosa”, como o monumento é chamado na cidade, está localizada no trevo de acesso ao parque industrial, na MT-449. Juntamente com outras estátuas gigantes — o “Semeador”, a “Ema” (ave símbolo de Lucas), o porquinho “Luquinha” e sua espiga de milho –, traduz a gratidão do luverdense às atividades que movimentam a economia local. Foi inaugurada pelo produtor e ex-prefeito Otaviano Pivetta, para quem o monumento simboliza o potencial econômico e a riqueza que a avicultura produz no município, e o que irá produzir nos próximos anos.

Lucas não é uma ilha imune aos males impostos pela recessão brasileira. Nos últimos anos, a cidade sentiu seus efeitos, mas com menor intensidade que outras regiões do País. “Como sempre dizemos por aqui, enquanto Lucas do Rio Verde produzir o que o mundo precisa, que são alimentos, não vai haver crise, vamos passar por ‘marolas’”, afirma o secretário Raabe. Na última década, as taxas de crescimento mantiveram uma média em torno dos 10% ao ano. Mais recentemente, enquanto o Brasil parava, a cidade crescia 5% a 6%. “Hoje estamos com crescimento menor, mas com números positivos e acima da média do estado e do Brasil. A chegada da F&S Bionergia pode contribuir, sim, para a recuperação do ritmo de crescimento da economia local e ejetar a cidade para novos ciclos econômicos.”

A estátua do porquinho “Luquinha” e sua espiga de milho: gratidão do luverdense às atividades que movimentam a economia local

O F no nome da empresa proprietária da usina de etanol vem de Fiagril Participações, holding comandada por outro ex-prefeito e um dos pioneiros de Lucas, Marino Franz. Ele transformou uma pequena revenda de insumos em uma gigante com atuação em vários segmentos do agronegócio, com o quinto maior faturamento do estado. “O advento da BRF foi um marco para a verticalização da economia, sucedida da produção de biodiesel, com a Fiagril, que criou um cenário para a vinda de tantas outras empresas que formam a cadeia do agro para agora chegar a F&S”, afirma Binotti, o atual prefeito.

Muitos municípios da região se beneficiam do polo luverdense, como Itanhangá, Ipiranga do Norte e até mesmo Sorriso, com muitas granjas de suínos e aves, e que fornecem animais à BRF. “O boom de crescimento trazido pelo frigorífico alavancou várias cidades vizinhas, que fornecem matérias-primas às indústrias de Lucas”, diz Raabe. “O produtor cria aves e suínos porque tem a certeza de que há um comprador em grande escala, nesse caso a BRF. O agricultor produz grãos porque tem a certeza de que sua produção será consumida. É uma reação em cadeia que vai abrindo oportunidades dentro de um ciclo virtuoso.”

PROJETOS E INCENTIVOS

As futuras expansões requerem, no entanto, investimento em infraestrutura. Binotti conta com a transformação do município em um importante entroncamento ferroviário. Ali se conectariam a Ferrovia da Integração Centro-Oeste (Fico) e os trilhos da Ferrogrão, o que permitiria baratear o custo de produção e ampliar o escoamento pelos portos do Norte do País. Essa é, no entanto, uma variável que foge ao controle dos administradores municipais. Para os investidores, eles acenam com a criação de um novo distrito industrial, com área de 200 hectares, localizado em ponto estratégico, próximo de grandes plantas e ao lado do aeroporto municipal, às margens da MT-449.

Raabe explica que a prefeitura faz de tudo para atrair investimentos, mas não doa terrenos. “Temos essa política de gestão, mas os vendemos a preços aquém do valor venal, cerca de 50% a 60%, e facilitamos o pagamento com parcelas.” Como exemplo, um terreno com valor de mercado entre R$ 180 mil e R$ 200 mil vai custar, pela venda direta da prefeitura, de R$ 90 mil a R$ 100 mil. Além da facilidade na aquisição de áreas, o município oferta nos primeiros três anos isenção de impostos municipais, como IPTU, ISS e alvarás, tanto de funcionamento da empresa como o que incide sobre a construção do projeto.

Foi esse pacote o oferecido à F&S, que começa a operar ainda longe da sua capacidade máxima. A capacidade inicial de produção prevista da planta é de 240 milhões de litros de etanol por ano. A unidade ainda terá potencial para produzir anualmente até 186 mil toneladas de farelo de milho – sendo 125 mil toneladas de farelo com alto teor de fibra e 61 mil toneladas de farelo com alto teor de proteína –, além de 7 mil toneladas de óleo de milho.

PÚBLICO E PRIVADO

Lucas cresceu de maneira rápida, porém em velocidade suficiente para que o crescimento se desse de forma estruturada, fornecendo bases sólidas para novos avanços. Primeiro prefeito da cidade, entre os anos de 1989 e 1993, Werner Kothrade abriu a linhagem dos prefeitos “não políticos” da cidade, trazendo para a gestão pública, empresários e líderes da iniciativa privada. Para Kothrade, seu slogan de trabalho “Certeza de progresso”, foi uma espécie de profecia. “Se olharmos a cidade de 30 anos atrás, que começou de um assentamento criado pelo Incra, e a examinarmos agora, como protagonista do agro nacional, realmente dá para acreditar que profetizamos.” Ele viu a cidade passar de uma população de 23 mil habitantes, há cerca de 15 anos, para atuais 75 mil. Mesmo não sentindo saudades da vida pública, Werner conta com orgulho dos seis primeiros quilômetros de asfalto da cidade, implantados por ele, e de construir 18 pequenas escolas em locais, que na época, eram considerados rurais. “Quando assumi, não tinha caneta e muito menos uma sede para o paço municipal. A energia vinha de motores geradores a diesel, linha telefônica era luxo.” Natural de Santa Catarina, se radicou no estado em 1977, criou cinco filhos, o hino da cidade e vive hoje da sua vocação: produtor rural, com plantações de soja e milho e criação de gado.

Há um consenso em Lucas de que o sucesso da cidade como um porto de investimentos tem muito a ver com a gestão pública, em razão do perfil dos governantes, o que na opinião da população e de lideranças locais, “é um modelo que deveria ser adotado no País todo”. Os prefeitos migraram da iniciativa privada, pessoas que não tinham a política por profissão e por isso sabem que o cargo é passageiro e querem deixar sua contribuição. O atual prefeito, Luiz Binotti, está na região há 30 anos e é empresário e produtor rural. “Já que são empresários, e fazem uma gestão focada no desenvolvimento socioeconômico, eles acabam ganhando com a expansão das oportunidades, dando viabilidade aos seus próprios negócios de forma indireta, mas, antes de tudo, melhorando a cidade”, explica Raabe.

Cerimônia de inauguração da Usina de Etanol de Milho da FS Bioenergia

ORGULHO DA CIDADE

Se o campo é o principal cartão de visita para aportes de novos investimentos, a geração de emprego também está vinculada e dependente do setor. Em Lucas, por exemplo, não é raro se encontrar profissionais em funções pouco conhecidas, como a de técnico em manutenção de silos. É prestando esse serviço que Raulino Menezes ganha a vida. Entre seus clientes estão grandes tradings como Bunge e Cargill, empresas que ele cita com orgulho.

Ele diz que, na cidade, quando o campo vai bem, tudo vai bem. “A riqueza é distribuída, fomenta todos os setores da economia local.” Em 2014, quando houve frustração de safra, Lucas registrou um aperto na circulação de dinheiro na sua economia. “Tinha contratos para novos projetos para o ano seguinte, mas na época foram adiados e estão sendo retomados agora”, conta. Quem não vive diretamente do agro depende dele para sustentar a família. Marcos Delta, um ex-caminhoneiro que trocou as estradas pela construção civil, está nesse grupo. Nasceu em Guarulhos, em São Paulo, mas se diz luverdense. “Finquei o pé aqui em Lucas”, conta. Na cidade, o crescimento se enxerga por meio de todo tipo de obras, desde a residencial até as voltadas a grandes projetos. “Serviço não falta. Aqui tenho oportunidades. Não me vejo em outro lugar.”

Os outdoors da cidade são disputados por anúncios de insumos agrícolas e de empreendimentos imobiliários. O espaço que sobra vai para franquias nacionais, como as redes Subway, Cacau Show, Brasil Cacau ou a grife feminina Carmen Steffens. “A classe alta de Lucas não precisa se deslocar mais para Cuiabá para ter acesso às novidades e produtos de luxo”, observa Rosemeri Biava Scariotto, gerente da Lenita Modas. A loja, com sede em Sorriso, tem sua única filial instalada há sete anos em Lucas. Atende o público das classes A a D e tem um pouco de tudo, como uma loja de departamentos. Como outros endereços na cidade, revende marcas famosas e do segmento de luxo, especialmente no segmento de cama, mesa e banho. Lá, é possível comprar, por exemplo, lençóis de 500 a 600 fios, acetinados, como os utilizados em hotéis refinados. Um jogo desses para uma cama king size passa de R$ 1,2 mil. Rose, como é conhecida, conta que veio há 25 anos do estado do Paraná, já contratada pela loja. “As oportunidades oferecidas por Mato Grosso para o crescimento profissional não se encontram mais em estados do Sul e Sudeste.”

As histórias de migrantes que realizam seus sonhos na região de Lucas correm o interior do Brasil e atraem novas levas de trabalhadores e empreendedores. Fábio Raabe, o secretário de Desenvolvimento Econômico, não teme pelas consequências dessa expansão. A cidade, pontua, tem um Plano Diretor bem elaborado, revisado anualmente e que tem suas diretrizes respeitadas. “Lucas possui um perímetro muito bem delimitado, preparado para atender até 300 mil habitantes”, afirma. Isso tornaria a cidade a segunda mais populosa do estado, atrás apenas da capital, Cuiabá.

RAIO-X

Latitude: 13° 01′ 59″ sul

Longitude: 55° 56′ 38” oeste

Distância de Cuiabá: 334 km

Área Total: 3,6 mil km2

Área cultivada: 280 mil ha

PIB Agrícola: R$ 484 milhões

PIB Industrial: R$ 560 milhões

 

Henrique Ubrig, CEO da F&S Bioenergia

Por que Lucas?

O CEO da F&S Bioenergia, Henrique Ubrig, tem respondido com frequência à mesma pergunta: por que a usina da companhia foi instalada em Lucas do Rio Verde? Afinal, entre os maiores produtores de milho no estado, Lucas do Rio Verde é apenas o 5º, de um ranking dos dez maiores, com produção anual de pouco mais de 1,2 milhão de toneladas. Ubrig tem a resposta na ponta da língua. A escolha, diz, se deu justamente pela vocação mais industrial de Lucas em relação às cidades vizinhas. E também, é claro, porque um dos investidores da empresa, Marino Franz – a F&S é uma joint venture entre Fiagril Participações, de Franz, e a americana Summit Agricultural Group –, sempre quis ampliar a demanda do grão a partir de sua cidade. “O segredo é estar perto da matéria-prima. Em menos de 50 km temos milho em abundância e isso é importantíssimo”, destaca Ubrig.

A capacidade inicial de produção prevista da planta é de 240 milhões de litros de etanol por ano. A unidade ainda terá potencial para produzir anualmente até 186 mil toneladas de farelo de milho — sendo 125 mil toneladas de farelo com alto teor de fibra e 61 mil toneladas de farelo com alto teor de proteína — além de 7 mil toneladas de óleo de milho. O farelo de milho, chamado DDG (que significa grãos secos por destilação, na sigla em inglês), tem aplicação na nutrição animal. Já o óleo de milho será utilizado como combustível em motores de ciclo diesel. A usina ainda irá gerar energia elétrica proveniente de biomassa. A capacidade de cogeração da FS Bioenergia será de 60.000 MW, suficientes para abastecer uma cidade de cerca de 25 mil habitantes.

A possibilidade de aproveitar o farelo de milho de alto poder proteico abre mercado para fomentar outras atividades, como piscicultura, pecuária de corte e leiteira, suinocultura e avicultura. Assim, a produção do DDG deve ser um dos pontos centrais do terceiro boom de Lucas, atraindo para o entorno da cidade, por exemplo, grandes confinadores de bovinos, pois, além da farta ração, já há toda uma estrutura industrial voltada ao processamento da carne.

A planta, por gerar energia por meio de cavacos de madeira, abre ainda um novo mercado para o agronegócio local, a implantação de florestas de eucalipto, que, a longo prazo, poderão atrair indústrias de celulose. Já o óleo do milho, que por enquanto tem como destino o biodiesel, poderá ser refinado e envazado em Lucas, ampliando a rede de transformação das matérias-primas. Como resume Ubrig, o milho deixa de ser um grão “para gerar combustível, etanol de alto valor agregado, óleo de alto valor agregado, proteína de alto valor agregado, e eletricidade”. E completa: “Desse modo, conseguimos multiplicar o que valia 100 para 300 ou 400, criando oportunidades, comprando do produtor local e alimentando a demanda por novas indústrias. O milho vai deixar de ter apenas seu papel agronômico de ser uma cultura sucessora da soja para assumir o protagonismo econômico tão buscado pelo produtor mato-grossense”.

 

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