A incrível força do bambu

Charmoso, rústico, sustentável. Da Tailândia ao Brasil, ele tem um amplo mercado a ser explorado


Edição 6 - 15.10.17

É no mínimo contra a intuição: um material encontrado na natureza e que, apesar de leve e oco, é capaz de suportar uma carga maior que o aço ou o concreto. Pois o bambu não apenas sustenta construções de grande porte como ainda dá à arquitetura um charme único, rústico e chique. Em países como China, Indonésia e Tailândia, onde essa tradição vem sendo transmitida há gerações, construções em bambu chegam a um grau de sofisticação que nem parecem feitas da planta. Um exemplo recente é o centro esportivo da escola Panyaden, na Tailândia. Projetada pelo escritório Chiangmai Life, a estrutura cobre uma área de 782 m2 e foi feita a partir de treliças de bambu com até 17 metros de comprimento, dispensando qualquer reforço de aço – uma exigência da própria escola, de orientação budista. Dois engenheiros especializados foram contratados para garantir que o pavilhão fosse totalmente imune a fortes ventanias e até mesmo a terremotos. Um tipo de construção que em nada lembra as frágeis cabanas ainda comuns em vilarejos daquela região.

Afinal, o que faz o bambu ficar entre o luxo e a pobreza? Segundo o engenheiro civil e secretário executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Bambu, Vitor Marçal, um dos principais fatores é o tratamento. “Existem estruturas feitas a partir do bambu in natura, mas nas grandes construções a planta passa por um processo de tratamento, o que permite, por exemplo, vedá-la contra o ataque de insetos e, assim, durar mais tempo. Outro ponto crucial é o projeto”, diz Marçal. Ele integra um comitê da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que está trabalhando para lançar, em breve, as normas para a utilização do bambu como matéria-prima na construção. “Será um grande incentivador para o uso do bambu no Brasil. Com as normas, ele terá o mesmo status que outros materiais, como o concreto, a madeira e o aço.”

Outro obstáculo à expansão desse segmento no Brasil é a escassez da matéria-prima. Apesar de determos a maior reserva nativa de bambu do mundo, nossas mudas estão majoritariamente na região amazônica, em pontos de difícil acesso. A alternativa são os plantis comerciais, que trabalham não com espécies nativas brasileiras, mas sim de outros países. “Um plantil de bambu precisa de dez anos para se tornar comercial. Como muitos investiram há cerca de cinco anos, acredito que daqui a outros cinco teremos um mercado mais maduro em termos de oferta de matéria-prima”, diz Marçal. Por enquanto, quem trabalha com a matéria-prima muitas vezes é obrigado a buscá-la em mais de um fornecedor, aumentando os custos com transporte. Considerando ainda a mão de obra, que ainda é escassa, fica fácil entender por que os projetos com bambu são ainda relativamente caros no Brasil quando comparados a outros materiais. Para o alemão Jörg Stamm, um dos maiores especialistas no aproveitamento do bambu no mundo, uma forma de fomentar esse mercado no país seria pelo que ele chama de “bambu disfarçado”. “Temos a fibra de bambu e a madeira de bambu, por exemplo, que inclusive é mais sustentável que a madeira de eucalipto”, diz. “Produtos em geral feitos de bambu, até mesmo detalhes no painel de um carro, tudo isso contribui para uma maior aceitação  e também demanda da matéria-prima.”

Bike artesanal da ArtBike, de Porto Alegre