A imagem do Brasil na grelha

Como a Operação Retenção consertou os estragos feitos pela Carne Fraca


Edição 4 - 13.10.17

Por Nicholas Vital

O dia 19 de abril passado foi especial para Antonio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Depois de três dias intensos de reuniões em Bruxelas, na Bélgica, onde participou ativamente das negociações para a retomada das exportações dos frigoríficos brasileiros para a Europa após o escândalo da Operação Carne Fraca, o executivo desembarcou em Teerã, capital do Irã, logo cedo, já pronto para iniciar uma nova rodada de encontros com autoridades locais e importadores de carne. O fim da tarde, no entanto, estava reservado a um compromisso bem mais importante: um jantar reunindo representantes do governo brasileiro, funcionários da embaixada e alguns dos grandes compradores de carne iranianos, evento que tinha como objetivo reforçar as boas relações entre os países e celebrar a reabertura de um mercado-chave para o Brasil.

Anfitrião da festa, Camardelli recepcionou cada um dos 128 convidados e os conduziu até o belo jardim arborizado onde estavam montadas as cerca de 25 mesas e a cozinha improvisada, que àquela altura já funcionava a todo vapor. O cardápio não poderia ser diferente: churrasco com carnes brasileiras da melhor qualidade, servidas por uma equipe do restaurante Barbacoa, enviada diretamente de São Paulo para o Irã dias antes. Liderados pelo chef-estrela Jeferson Finger, que comandou uma parrilheira com mais de cinco metros de extensão, os garçons do Barbacoa serviram nada menos do que 160 quilos de picanha e bife ancho naquela noite.O rega-bofe, financiado pela iniciativa privada, foi mais uma etapa da “Operação Retenção”, uma espécie de road show promovido pelas indústrias exportadoras com a intenção de dar explicações e resgatar a credibilidade da carne brasileira junto aos grandes compradores após a repercussão negativa da operação deflagrada pela Polícia Federal semanas antes. No caso do Irã, um mercado que compra mensalmente mais de US$ 30 milhões dos frigoríficos brasileiros, este “carinho” era especialmente necessário. “Durante o churrasco, pouco se falou sobre problemas sanitários. As conversas giraram em torno do mercado como um todo e das melhorias nos processos técnicos”, disse Camardelli a PLANT, por telefone, diretamente de Teerã, logo após o evento.

Na prática, a única decisão tomada pelas autoridades iranianas durante a reunião informal foi a de fazer uma nova rodada de inspeções nos frigoríficos brasileiros, medida que agradou os organizadores do evento. “Eles decidiram fazer uma auditoria, o que a gente achou muito bom. É melhor que venham mesmo, até para ratificar as condições das nossas indústrias”, disse o executivo, já de malas prontas para o Egito, onde ofereceria outro churrasco de relacionamento semelhante dois dias depois.

Camardelli lembra que, após a divulgação da Operação Carne Fraca, 41 países levantaram algum tipo de restrição à carne brasileira, entre eles alguns de nossos principais mercados, como Hong Kong, Egito e União Europeia, que suspenderam imediatamente as importações. Passados 30 dias desde o estouro do escândalo, apenas sete países ainda mantinham algum tipo de restrição à carne bovina brasileira — Argélia, Trinidad e Tobago, San Vicente e Granadinas, Suriname, Moçambique e Granada — mercados que, segundo a Abiec, foram responsáveis por apenas 1,45% das exportações de carne bovina em 2016.

Blairo Maggi inspeciona frigorífico no Paraná logo após a deflagração da Carne Fraca

Superada a fase de reabertura de mercados, a partir de agora será preciso seguir gastando muita sola de sapato para retomar a confiança dos importadores e restabelecer completamente as vendas externas. “O trabalho para reverter a situação está sendo um esforço conjunto entre o governo, através do Ministério da Agricultura, Ministério das Relações Exteriores e Itamaraty, entidades setoriais e empresas exportadoras”, afirma o representante dos frigoríficos, admitindo que o maior prejuízo foi mesmo à reputação da carne brasileira no exterior.

“Por ser um grande competidor nesse mercado internacional de carnes, e, mais do que isso, ser um dos poucos países que podem atender demandas pontuais de outros mercados, com volume e qualidade, o Brasil se tornou uma vitrine. E, como vitrine, teve um grande abalo de imagem por conta da Operação Carne Fraca, que é o que a gente está tentando desfazer agora”, diz o executivo, que contou com o apoio irrestrito de autoridades do primeiro escalão do governo brasileiro durante todo o período de crise.

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Enquanto Camardelli e sua equipe rodavam a Europa e o Oriente Médio dando explicações, no Brasil, uma equipe do Ministério da Agricultura liderada pelo secretário executivo Eumar Novacki, braço direito do ministro Blairo Maggi, passou a atender delegações de países importadores e organizar visitas aos frigoríficos. Somente nos primeiros dias foram recebidos representantes da Jamaica, Chile, Rússia, Arábia Saudita e União Europeia, que se mostraram satisfeitos com as explicações e autorizaram rapidamente a retomada das exportações. Em entrevista coletiva concedida no início de abril, o ministro Blairo Maggi afirmou que “boa parte da batalha foi vencida”, referindo-se à retomada dos embarques para parceiros comerciais importantes, como China, Hong Kong, Chile e Egito. Ainda assim, confirmou presença em uma missão de 20 dias por Emirados Árabes, Arábia Saudita e China. “Temos bom comércio e é importante termos, com eles, essa transparência”, destacou Maggi, que também deve passar pela Europa em seu caminho de volta. Para o ministro, no entanto, toda essa confusão poderia ter sido evitada. “O problema foi a forma de divulgação, que colocou em dúvida a qualidade do produto e nosso sistema de inspeção, que é forte, robusto”, afirmou.

Camardelli, da Abiec: ações coordenadas no exterior

As críticas se dão pela forma generalista como a Polícia Federal anunciou a operação nos frigoríficos, dando a impressão de que todas as unidades investigadas tinham problemas sanitários — o que não é verdade. No caso da fábrica da BRF em Mineiros (GO), por exemplo, o fechamento se deu por conta da suspeita de conduta irregular no relacionamento entre funcionários da empresa e fiscais agropecuários. O fato é lamentável, mas, neste caso específico, não houve nada relacionado à qualidade ou segurança dos alimentos, tanto que a unidade foi reaberta poucos dias depois. Ainda assim, a imagem que ficou para o consumidor final é a de que parte da produção da BRF estaria irregular ou até contaminada — problema que de fato ocorreu em frigoríficos.

O que também não ficou claro para o consumidor médio é que o Ministério da Agricultura não é o único órgão fiscalizador desses estabelecimentos. Para que um frigorífico receba a autorização para exportar, ele é submetido a inspeções minuciosas por parte dos compradores estrangeiros e estão sujeitos a visitas técnicas a qualquer momento, sem a necessidade de aviso prévio. A planta da BRF em Mineiros, inaugurada em 2007, é considerada uma das mais modernas do País e estava habilitada para exportar para Japão, Canadá e Europa, alguns dos mercados mais exigentes do mundo.

De acordo com um profissional ligado à BRF que aceitou falar sob condição de anonimato, a divulgação “desastrada” por parte da Polícia Federal serviu para que alguns países usassem o episódio para desvalorizar a carne brasileira e barganhar preços melhores, uma espécie de guerra comercial travestida de barreira sanitária. “A Coreia do Sul compra 80% do seu frango do Brasil, não apenas da BRF. Ela suspendeu imediatamente as importações e, logo depois, voltou atrás. Por quê? Simples: porque ela não é produtora e não tinha como se abastecer de frango se não fosse comprando do Brasil. O frango é uma parte importante da dieta do coreano, então eles rapidamente voltaram”, conta o executivo. “É claro que existe a preocupação com a segurança alimentar, mas nós não podemos ignorar que também existe uma disputa comercial.”

Comitiva russa é recebida pelo ministro Maggi em Brasília: em busca de informação

A teoria é confirmada por Antonio Camardelli, da Abiec, embora ele não cite nenhum caso específico. “Comercialmente falando, tivemos algumas tentativas de desvalorização do produto nacional por parte dos importadores. No entanto, garantimos a qualidade do nosso produto e não aceitaremos que ele seja desvalorizado por uma má conduta de uma parcela minúscula do setor, que não representa de maneira nenhuma o comportamento geral da cadeia”, diz o representante dos exportadores de carne bovina, admitindo, porém, que o acesso a novos mercados pode ser dificultado. “Nesses casos, o caminho para a abertura se tornou ainda mais longo e complexo. Sem dúvida, a imagem da carne brasileira foi arranhada.”

No mercado interno, o prejuízo à reputação do setor de carnes também parece ter sido maior do que as perdas comerciais. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo no dia 11 de abril aponta que “três de cada dez paulistanos dizem comer menos carne após a operação da PF.” Na prática, não foi bem isso que aconteceu. Na mesma reportagem, a Associação Paulista de Supermercados (Apas) afirma que não houve redução nem da demanda nem dos preços no mês de março, no auge do escândalo.

Os profissionais ouvidos pela reportagem são unânimes em dizer que a crise é passageira e que a confiança do consumidor deve retornar gradualmente — movimento que deve ser agilizado graças à imagem de solidez construída pelas empresas do setor ao longo dos anos. “Se por um lado você tem uma marca forte que se torna alvo com maior facilidade, por outro essa marca forte também lhe ajuda a reverter o problema. O consumidor pensa: ‘Essa marca existe há 80 anos e nunca me causou nenhum problema’. Estamos usando a tradição e o histórico de nossas marcas para demonstrar que o problema não é bem assim”, diz a fonte da BRF.

Chef Jeferson Finger, do Barbacoa, assa cortes brasileiros em grelha armada no jardim da Embaixada do Brasil em Teerã, no Irã: amarrando o cliente pelo sabor

Opinião parecida tem o consultor em gestão de imagem Jaime Troiano, CEO da Troiano Branding. “Empresas tradicionais como a BRF e a JBS têm um diferencial que é conhecido como saldo médio. Elas não começaram a vender carnes ontem. Essas companhias fazem isso há muito tempo e são respeitadas pelos consumidores, que acabam tendo uma tolerância muito maior com essas marcas. As empresas vão precisar usar o histórico de credibilidade para se recuperar”, afirma o especialista, ressaltando que os frigoríficos menores podem sofrer mais nesse período de crise. “Quanto menor o saldo médio, mais difícil será a missão de recuperar a credibilidade junto ao mercado”.

Troiano considera que o caso ganhou uma repercussão ainda maior por envolver um alimento fundamental para a “saúde e felicidade” da população brasileira, mas aponta erros básicos de comunicação cometidos pelo setor após a divulgação da operação pela imprensa. “Há uma década, você podia esperar um dia ou até dois para dar uma resposta. Hoje você precisa dar uma resposta em uma hora, no máximo, ou a especulação vai correr solta e as fantasias podem se tornar realidade. Foi isso o que aconteceu”, diz o especialista. “Também não vi nenhuma das empresas admitir qualquer tipo de problema e nem se desculpar com os consumidores.”

Entre erros e acertos, o fato é que o pior já passou. As investigações da Polícia Federal têm apontado falhas pontuais e o tempo está mostrando que o sistema brasileiro de produção de carnes, hoje uma referência mundial, funciona — ainda que não seja à prova de falhas. As notícias relacionadas ao setor também melhoraram e a tranquilidade, aos poucos, vai sendo restabelecida. A partir de agora, só nos resta aguardar a conclusão das investigações pela Polícia Federal e torcer pela punição dos envolvidos nesses esquemas ilegais. Que o escândalo da Carne Fraca sirva de lição e estimule o aperfeiçoamento dos sistemas de fiscalização no Brasil. “Existe um ditado em Minas Gerais que diz que ‘tropicão também leva para a frente’. Esta crise é uma oportunidade para o setor de carnes avançar ainda mais”, completa Jaime Troiano.

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