Um voo para o novo Oeste

Depois de consolidar suas lavouras, Oeste da Bahia vive crescimento movido pela agroindústria

“Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”

Monteiro Lobato


13.12.16

Por Catarina Guedes, de Luís Eduardo Magalhães (Bahia)/Foto de Rui Rezende

Reza a lenda que nos anos de 1980 um sujeito com muita coragem e dinheiro suficiente para comprar um maço de cigarros poderia adquirir um hectare de terra no Oeste da Bahia, a imensidão quase esquecida à margem esquerda do rio São Francisco. Como o valor era irrisório, o fator de decisão era mesmo a coragem, porque – dizia-se – aquelas terras não compensavam sequer o arame da cerca.

Primeiro, porque eram muito ácidas e arenosas, características típicas dos solos do cerrado que então despertavam pouco interesse dos agricultores. Depois, pelo isolamento: estavam a mil quilômetros de Salvador e a 500 quilômetros de Brasília, em uma época de estradas ruins, telefonia incipiente e eletrificação precária.

O Oeste era tão distante e isolado que nem os governos chegavam lá. Ou talvez fosse remoto porque estava fora da agenda dos governantes. Por isso, teve de ser aberto no braço. Hoje, cerca de arame é raridade em um dos maiores polos de produção agrícola do Brasil, dono de recordes mundiais de produtividade e que cresce em ritmo chinês. O desenvolvimento da agricultura na região resultou do investimento intensivo em tecnologia em variedades adaptadas às condições de clima e solo locais, máquinas, químicos e manejo apropriado.

A evolução nas lavouras acarretou uma espiral de desenvolvimento em setores diversos, com a chegada das agroindústrias e o incremento na infraestrutura, tecnologia, serviços, educação e comodidades. Se hoje o Oeste da Bahia não é tanto uma fronteira agrícola, no sentido mais desafiador do termo, ainda guarda oportunidades de negócios para quem além do capital e da coragem dos primeiros desbravadores, detém requisitos como conhecimento, capacidade de gestão e visão de mercado.

SOJA É MOEDA

Para os corretores, a saca de soja é moeda corrente e dá uma dimensão mais precisa da valorização dos imóveis rurais. Hoje um hectare na região vale em média de 400 a 500 sacas de soja, ou de R$ 25 mil a R$ 30 mil — em casos excepcionais, chega a 600 a 800 sacas o hectare, segundo Marcelo Padilha, da corretora Fragatta. De acordo com a estimativa da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) para a safra 2015/16, o Oeste deve colher quase seis milhões de toneladas de grãos, em uma área de 2,3 milhões de hectares.

A soja, cultura precussora, ocupa 65% da matriz produtiva, na qual se destacam ainda algodão, milho, café e frutas, com a entrada cada vez mais expressiva da pecuária, em projetos de confinamento para leite e corte. A região é a segunda maior produtora de algodão do País, e reconhecidamente uma das melhores origens em qualidade de fibra. Na atual safra, a cultura ocupa 250 mil hectares, com expectativa de produtividade média de 173 arrobas de capulho por hectare.

As estimativas mais conservadoras apontam que ainda é possível somar cerca de um milhão de hectares à área plantada da região, mas há muita controvérsia a respeito. “Na minha opinião, o Oeste pode chegar a quatro milhões de hectares ocupados com lavouras, respeitando totalmente a legislação ambiental. Se desenvolverem plantas mais resistentes ao déficit hídrico, essa margem pode aumentar”, diz o produtor rural Sergio Pitt, um dos pioneiros na região e hoje secretário de Indústria e Comércio do município de Luís Eduardo Magalhães.

PLANO DE VOO

A família Rangel é uma prova da diversificação produtiva do cerrado baiano. Nada de soja, algodão ou milho. Em 2009, eles fundaram em Barreiras a Aero Centro, que monta e comercializa as aeronaves RV, da americana Van’s Aircraft e, desde 2012, trabalham na pesquisa e desenvolvimento de uma aeronave executiva para cinco passageiros, 100% desenvolvida na cidade, o Kronos 315. Segundo os empresários, uma iniciativa inédita no Brasil nessa categoria.
Para isso, o piloto Kleber Rangel, os filhos Kaio e Thiago e a esposa Lucilene investiram cifras vultosas na contratação de engenheiros e técnicos de várias partes do mundo. Investiu também na formação dos membros da família. Kaio

tem 23 anos e vive a aviação desde que nasceu. Piloto com mais de três mil horas de vôo, aprimorou os conhecimentos na Tutima Academy of Aviation Safety, na California. Aos olhos do pai, é ele quem entende tudo sobre o Kronos 315. O jovem explica que o Kronos 315 será uma aeronave homologada, de asa baixa e alta performance. Além disso, é segura, de fácil operação e foi pensada para atender à demanda dos produtores rurais e empresários que pilotam. “A meta era lançá-la no mercado em 2017, mas tivemos de mexer no cronograma pela dificuldade de encontrar linhas de crédito e entidades que avaliem o valor de projetos como esse”.

DE AERÓDROMO A “AEROTRÓPOLE”

Os agricultores do Oeste entenderam desde os primeiros anos que de nada adiantaria esperar que o poder público lhes provesse infraestrutura. Por isso, juntaram esforços para sanar uma lacuna na logística do município de Luís Eduardo Magalhães: a falta de um aeroporto dimensionado para grandes aeronaves. O município dispunha de um aeródromo, mas em caso de viagens com aviões maiores, era em Barreiras, a 90 km de distância, que pousavam.

Em 2007, um grupo de empresários e agricultores locais decidiu construir uma estrutura compatível com essa demanda. Identificou então um trecho da Fazenda Agronol, a um quilômetro da entrada do Centro de Pesquisa e Tecnologia do Oeste da Bahia (CPTO) — sede da Fundação Bahia e da Bahia Farm Show, uma das três maiores feiras de tecnologia agrícola do Brasil. “Uma localização estratégica”, conta o secretário Pitt, um dos integrantes do grupo.

A área foi cedida pelo grupo Santa Izabel, capitaneado pelo empresário Ferdinando Magalhães. “Após conseguirmos a área, estabelecemos uma Parceria Público Privada com o governo da Bahia, na qual os empresários doavam a área e se comprometiam a fazer todo o trabalho de base”, explica. Isso aconteceu em 2010. As obras começaram, enfrentaram desgastes com a morosidade nos processos de licenciamento ambiental, mas o aeroporto hoje é uma realidade.

A estrutura dispõe de pista de 2 mil metros, pátio de 40 mil metros quadrados e hangar. Em 2015, novamente com a colaboração financeira de empresários locais, foi construída uma estrada de acesso ao parque da Farm Show, uma pista de taxiamento para as aeronaves, além da iluminação para pousos e decolagens noturnos. O Estado entrou com o asfalto.

Entre recursos públicos e privados, foram investidos R$ 35 milhões no aeroporto. “Agora estamos trabalhando para fazer dele um equipamento público junto à ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil)”, diz Pitt. “A localização geográfica de Luís Eduardo Magalhães é estratégica tanto para a agricultura da Bahia, como também para torná-la um centro logístico do Nordeste brasileiro. A combinação de um aeroporto de porte, um centro industrial, uma cidade planejada, com rede hoteleira e comércio forte transformará Luís Eduardo Magalhães em uma verdadeira ‘aerotrópole’ regional”, vislumbra o secretário.

É MELHOR FICAR

“Eu cresci com o agro e devo tudo à agricultura. O campo me possibilitou ser quem eu sou, viajar, aprender e consumir produtos diferenciados. Mas a minha realização pessoal é a moda, que está intimamente ligada ao setor agrícola”, conta Vanessa Horita, nascida em Barreiras em meio a uma das famílias pioneiras na produção de algodão no cerrado.

Com uma formação que incluiu passagem pela Cotton School, em Memphis, no Tennessee, e estágio em algumas das tradings mais famosas do mundo na comercialização da commodity, ela uniu a familiaridade com a produção ao seu amor por moda. Hoje é uma fashion influencer para os milhares de seguidores de suas redes sociais, e uma imagem valiosa que o comércio local adora – e paga – para ver associada aos seus produtos. Com conhecimento e meios para se estabelecer em mercados pelo mundo afora, optou por Barreiras e região, por vislumbrar ali um nicho rentável e um público de alto poder aquisitivo.

Como muitos jovens com facilidade de comunicação e inteligência, Vanessa está organizando seu canal no Youtube. Mas, se conquista seguidores e curtidas na internet, a base dos seus recursos vem do mundo real. “Tenho uma carteira de serviços variada e uma agenda cheia”, afirma. Palestras, produções de moda para eventos e editoriais, consultoria de compras presencial e por whatsapp e até uma linha de óculos com seu nome estão nessa agenda. “Transformei em negócio uma atividade que já fazia espontaneamente, que é dar conselhos de moda e estilo”.

CIDADE AGRO DIGITAL

Quando chegou ao Oeste da Bahia em 1980 nem o Posto Mimoso existia, conta o empresário e prefeito de Luís Eduardo Magalhães (LEM), Humberto Santa Cruz, referindo-se ao posto de combustíveis que foi o embrião do município, emancipado de Barreiras nos anos 2000. Santa Cruz, engenheiro civil do grupo Santa Isabel, mudou-se do Rio de Janeiro para Barreiras aos 32 anos com a missão de tocar o novo investimento do grupo, a Fazenda Agronol, que inicialmente seria um empreendimento canavieiro. Trinta anos e muitas guinadas depois, seu entusiasmo de desbravador só aumenta.

O projeto de cana-de-açúcar não vingou e foi substituído por culturas adequadas ao contexto da região. Hoje a Agronol produz soja, milho, algodão, mamão e café com irrigação. Sócio do grupo, há oito anos deixou o cargo de diretor superintendente e decidiu disputar a prefeitura de LEM.

A política partidária não estava nos planos do pioneiro, que se tornou a primeira liderança classista da região ao fundar a Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia, a Aiba, em junho de 1990. “Éramos 16 irrigantes preocupados em preservar o recurso mais valioso que tínhamos, a água”, lembra. “Mapeamos com GPS todos os projetos de irrigação existentes, a vazão de cada bomba e entregamos as informações ao governo baiano”. O objetivo era que fossem criadas políticas para garantir o uso racional e sustentável do patrimônio hídrico.

Ao longo do caminho, a Aiba ganhou abrangência estadual e respaldo nacional. Saltou dos 16 membros iniciais para 1,3 mil associados. “Tínhamos um modus operandi muito bem definido. Ao invés de esperar que fizessem algo pela região, diagnosticávamos o problema, buscávamos a solução e então resolvíamos por nossa própria conta ou propúnhamos uma solução compartilhada com o poder público”, explica. As parcerias entre os agricultores e governos através da Aiba respondem em grande parte pelo desenvolvimento da região, de eletrificação rural a telefonia e pavimentação de vias. As muitas vitórias se tornaram referência para outras associações no País.

Já LEM passou de 18 mil habitantes à época da emancipação para os atuais 90 mil. É a oitava economia da Bahia, ultrapassando Barreiras, décima primeira. Em 2014, seu valor agregado da produção foi da ordem de R$ 3, 3 bilhões. Agora, em parceria com a gigante chinesa de tecnologia de informação e comunicações Huawei, o município se tornou uma Cidade Digital, com 72 quilômetros de fibra ótica e banda de 300 mega de internet 4G que integra todos os serviços e prédios públicos.

Parte disso é o Centro de Controle e Operações (CCO), com sistema de vídeo-monitoramento através de 700 câmeras espalhadas na zona urbana, que se comunica online, por exemplo, com as polícias, hospitais e serviços de emergência. “Essa tecnologia se soma a tudo o que representa Luís Eduardo para o agro brasileiro e nos permite criar novos laboratórios, inovar e empreender. Temos um aeroporto, localização estratégica, indústria forte, universidades e muitas oportunidades de negócios”, completa Santa Cruz.

 

Publicado na edição #0 de PLANT PROJECT (julho de 2016)

TAGS: Agroindústria, Barreiras, Luís Eduardo Magalhães, Oeste da Bahia