Brasil, um protagonista mundial em AgTech

O que explica o boom de investimentos em startups de tecnologia agro no Brasil 


Edição 1 - 25.11.16

Por Clayton Melo

O surgimento do Netscape é um marco na história da internet comercial no mundo. Lançado em 1994, o navegador desenvolvido por Jim Clark e Marc Andreessen no Vale do Silício, na Califórnia, foi o primeiro a ser liberado ao público em geral. Com sua chegada, deflagrou-se uma guerra nesse setor, o que criou as condições para a popularização da rede.

O mercado de tecnologia no agronegócio, conhecido como AgTech, também tem o seu “momento Netscape”, como disse certa vez o site americano TechCrunch. Trata-se da compra da Climate Corporation pela Monsanto. Há três anos, a multinacional do agronegócio pagou US$ 930 milhões pela aquisição da startup americana.

Fundada em 2006 por ex-funcionários do Google, a Climate trabalha com tecnologias que coletam e analisam uma série de informações na lavoura, em tempo real, formando um banco de dados de fácil acesso por parte dos agricultores. Para a Monsanto, o negócio representou a entrada na chamada agricultura digital, que utiliza algoritmos e Big Data no campo com o objetivo de aumentar a produtividade na lavoura.

AgTech no Brasil

Até essa transação, o mercado de AgTech se desenvolvia de forma gradual. Depois dela, no entanto, deslanchou feito foguete. Um relatório da AgFunder, plataforma americana online de investimento no setor, mostra que o faturamento desse mercado saltou de US$ 2 bilhões, em 2014, para US$ 4,6 bilhões em 2015. Os recursos se espalharam por negócios como robótica, biotecnologia, softwares e sistema de monitoramento de desempenho de lavouras, entre outras áreas.

Com a tecnologia digital, o campo passou a ser visto de cima, por satélites, e monitorado de longe por aplicativos para smartphone. Essa visão de futuro, que transforma talhões em coloridas figuras geométricas nas telas de computadores, tablets e celulares, começa a mudar rapidamente também a produção agropecuária no Brasil. A questão que se impõe é se o País que é líder na produção de uma variedade de grãos e de proteína animal terá condições também de estar na ponta dessa corrida tecnológica e começar a exportar também a mais valiosa das mercadorias: o conhecimento.

Por aqui, ainda estamos longe de uma aquisição bilionária que funcione como um divisor de águas, mas uma série de fatores demonstra que o Brasil vive o nascimento de um promissor ecossistema AgTech. A agricultura no País tem histórico de inovação em genética para sementes e no uso da tecnologia para melhorar a eficiência nas grandes propriedades.

PROTAGONISMO MUNDIAL

O dado novo é que tecnologia digital agora chega com força aos pequenos e médios produtores por meio de aplicativos de gestão, produtividade, monitoramento, rastreamento e análise de dados em tempo real da situação nas lavouras. O que tem propiciado o boom de startups AgTech no Brasil? E o que é preciso fazer para que esse ecossistema se fortaleça e o País se torne um protagonista global no setor?

Para encontrar as respostas, o primeiro passo é analisar o que move os principais competidores. “Acreditamos que a colaboração seja uma ferramenta fundamental para que o mundo consiga alimentar 9,7 bilhões de pessoas em 2050, e este é um passo nessa direção”, disse Rodrigo Santos, presidente da Monsanto para a América do Sul, durante o Global Agribusiness Forum (GAF), em julho passado. O passo a que se refere Santos foi a entrada da companhia na Brasil Aceleradora de Startups (BR Startups), um fundo idealizado pela Microsoft.

Com o aporte da Monsanto, o BR Startups começou a investir em novas empresas tecnológicas da agricultura. As rodadas de investimentos variam de R$ 250 mil a R$ 1,5 milhão por startup. O fundo tem um total de R$ 200 milhões captados para aportar em projetos promissores.

O apoio a startups no Brasil reflete a estratégia mundial da Monsanto rumo à agricultura digital. Paralelamente ao anúncio da parceria com a Microsoft, feito no GAF, a companhia realizava o pré-lançamento do primeiro produto da Climate no Brasil, o FieldView Plus. A ideia é que a solução seja utilizada por cerca de 100 produtores brasileiros de soja e milho na safra atual – o lançamento está previsto para daqui a dois anos. “O Brasil é um dos primeiros países onde demos esse passo, depois dos EUA”, afirma Mateus Barros, líder comercial da Climate para a América do Sul.

PROGRAMA DE ACELERAÇÃO

Não é um caso isolado na opção de privilegiar o País como base de lançamento de suas iniciativas AgTech. Uma de suas principais concorrentes, a Basf seguiu no mesmo caminho e lançou em agosto o AgroStart, um programa de aceleração de startups agro desenvolvido em parceria com a aceleradora ACE. A iniciativa vai selecionar empresas que desenvolveram soluções inovadoras em áreas como qualidade de vida no campo, automatização, gestão da lavoura e tomada de decisão. E que utilizem recursos como Internet das Coisas, Big Data e mobilidade.

“A Basf sempre fez muita inovação na agricultura. E agora também busca inovar na área de digitalização do campo”, afirma Almir Araújo Silva, gerente de marketing digital da Basf para a América Latina. Na visão de Pedro Waengertner, CEO da ACE, não há um país que possa, hoje, se dizer o líder absoluto no mercado mundial de AgTech. O Brasil tem assim um imenso campo de oportunidades, principalmente pela vocação do País para a agricultura. “Não há desculpa para o Brasil não ser algo extremamente relevante no cenário mundial de AgTech”, diz.

Francisco Jardim, sócio da gestora SP Ventures, que investe em novas empresas do agronegócio no Brasil, avalia que as startups serão fundamentais para colocar o Brasil em destaque nessa nova etapa do agronegócio. Isso porque o DNA de tecnologia e a agilidade desse tipo de empresa são atributos importantes na modernização da agricultura. “O setor exige novas tecnologias e inovações de ruptura para atender às demandas globais por alimentos em razão do crescimento populacional”, afirma.

Polo de startups
O estado de São Paulo tem se mostrado um solo fértil para o florescimento das AgTechs. A cidade de Piracicaba é um bom exemplo disso. Ela própria é um polo de tecnologia no agronegócio. Isso tem a ver diretamente com a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), principal centro de pesquisas agronômicas do País, cercado de lavouras muito produtivas e de um eficiente polo industrial. Em essência, esse cenário guarda semelhanças com as bases que geraram o Vale do Silício, o principal polo de inovação do mundo, na Califórnia, que tem na Universidade Stanford seu grande centro gravitacional.

Esse contexto motivou três profissionais de Piracicaba a lançar neste ano uma campanha, a AgTech Valley. O maior objetivo da iniciativa é fortalecer a identificação da sociedade local com o ecossistema tecnológico da cidade e, assim, estimular o desenvolvimento da região.

Os idealizadores são Sergio Barbosa, gerente executivo da incubadora EsalqTec, o empresário José Augusto Tomé, do coworking CanaTec, e o professor Mateus Mondin, presidente do Conselho Deliberativo da EsalqTec. “O AgTech Valley é uma iniciativa que organiza o sistema de inovação tecnológica de Piracicaba, que é sem dúvida nenhuma o Vale do Silício na agricultura”, diz Mondin. Ao redor da Esalq, conta, formou-se um ecossistema com mais de 80 empreendimentos de inovação tecnológica.

OS FUNDOS E AS STARTUPS
Muitas startups de Piracicaba foram ou são apoiadas pela incubadora da universidade. A EsalqTec, que completa dez anos em 2016, tem atualmente cerca de 60 projetos incubados. A questão de investimento em AgTech é um gargalo que precisa ser resolvido no País, na opinião de Sergio Barbosa. O gerente executivo da EsalqTec observa que o setor conta com programas de fomento público importantes, como o Pipe, da Fapesp, que auxiliam na fase inicial de uma startup agro.

A questão é que os fundos de investimento privilegiam empresas em estágios mais avançados. “Os fundos deveriam assumir mais riscos tecnológicos, assim como acontece nos EUA e Europa”, afirma Barbosa. As startups que trabalham com inovação que requer muitos investimentos em pesquisa, como biotecnologia, são as mais afetadas. “Precisamos que o setor de venture capital aposte nas garagens do agro.”

A Biopolix Materiais Tecnológicos enfrenta esse tipo de dificuldade. Fundada pela PhD Claire Tondo e por sua filha, Luisa Vendrusculo, a empresa é voltada para a pesquisa e produção de biopellets de fontes renováveis para a fabricação de plásticos biodegradáveis. A empresa está abrigada na incubadora Supera Parque de Inovação e Tecnologia, em Ribeirão Preto, e trabalha numa tecnologia desenvolvida por Claire, que é química industrial. Neste momento, as empreendedoras tentam obter financiamento da Fapesp, no valor de R$ 1 milhão. “Conseguir esse investimento vai ser importante não só pelo recurso em si, mas também para facilitar a conquista de verba com algum fundo maior”, diz Claire.

Alexandre Alves, sócio da gestora de fundos de investimento Inseed, de Belo Horizonte, é um dos investidores que apostam em inovação no agronegócio. A Inseed é a responsável pelos fundos Criatec 1 e 3 e a FIMA, voltado ao meio ambiente. O radar de Alves procura startups com soluções de alto potencial de crescimento, que não sejam facilmente copiadas por concorrentes. Assim, investe em empresas de áreas como biotecnologia e agentes biológicos, por exemplo. “O ecossistema brasileiro já é abundante e possui mecanismos de financiamento“, afirma. “O desafio é atuar na formação do empreendedor.“ Segundo ele, ainda é difícil encontrar líderes de startups de agro que aliem boa formação técnica e de gestão e administração.

CULTURA EMPREENDEDORA
O desenvolvimento de uma cultura empreendedora, como um fenômeno social, é recente no Brasil, o que explica em parte a dificuldade observada por Alves. Até mesmo empresários do segmento reconhecem esse desafio. “Noto que, de forma geral, os empreendedores estão um passo atrás nesse processo de evolução do AgTech no Brasil”, afirma Antonio Morelli, fundador da Agronow, uma das startups mais promissoras do agronegócio no Brasil e investida da SP Ventures. A empresa desenvolveu um software de produtividade agrícola que afere, em tempo real, a produção passada e futura das propriedades. “Participei recentemente de um evento com 45 AgTechs. Percebo que muitos fundadores ainda precisam amadurecer como empreendedores“, diz.

Contribuir para o aperfeiçoamento dos fundadores é um dos objetivos do recém-criado Comitê AgTech da Associação Brasileira de Startups (ABStartups). O núcleo agro da associação vai auxiliar os empreendedores com encontros, workshops, debates, informação e troca de experiências. “Queremos ajudar o ecossistema a se desenvolver da melhor maneira possível”, afirma Maikon Schiessl, diretor do comitê. Um levantamento feito pela entidade identificou cerca de 70 startups agro no Brasil. “Inevitavelmente muitas outras vão surgir porque os problemas no agronegócio existem e precisam ser resolvidos”, afirma Alexandre “Bio” Veiga, fundador da startup AgVali, uma plataforma online para negociação e compra de produtos agrícolas.

Veiga conhece bem o ecossistema de startups. Ele foi da equipe da Rocket Internet, um dos maiores fundos de investimento em tecnologia do mundo. “O Brasil precisa de empreendedores resilientes, dispostos a sujar a bota na fazenda e que entendam a realidade dos produtores”, afirma.

Foi isso o que fez o paulista Renato Girotto. Médico-veterinário, ele fundou em 2007 a RG Genética Avançada, na cidade de Água Boa, no Mato Grosso. Associada da EsalqTec, a empresa desenvolve programas de eficiência reprodutiva. Neste ano, Girotto lançou a Bart Digital, uma startup que realiza operações Barter, ou seja, o pagamento pelo insumo por meio da entrega do grão na pós-colheita, sem a intermediação monetária.

Em sua experiência de dez anos com projetos de alta tecnologia no agronegócio, ele diz que uma nova realidade está ajudando o setor AgTech: a segunda geração começa a assumir a gestão de muitas propriedades. São jovens que estudaram no exterior ou em grandes centros do País e são antenados com a tecnologia. “Essa realidade tem contribuído para o surgimento de várias startups agro”, afirma. “Isso sem falar da relevância do agronegócio na economia brasileira.”

Novos investidores
O potencial do mercado agro tem atraído fundos que há até pouco tempo não atuavam nesse setor. É o caso da A5 Capital Partners, companhia fundada no ano 2000. Recentemente, a empresa expandiu sua atuação para o agronegócio por meio do fundo FIP Venture Brasil Central. Com valor inicial de R$ 50 milhões, o fundo atua principalmente na região Centro-Oeste do País. Algumas mudanças no mercado levaram a A5 a ingressar na agricultura.

Renato Ramalho, sócio da A5, explica que o setor historicamente dava mais valor à compra de terra do que ao investimento em tecnologia nas propriedades. Hoje não é mais assim. “Os dados mostram que, nas últimas décadas, a área de plantio no País cresceu 50%, enquanto a produtividade subiu 300%. A tecnologia entrou na agricultura”, afirma. “Agora, tem uma segunda onda tecnológica no agro, com recursos mais acessíveis.”

A visão de Ramalho é emblemática do papel central que a tecnologia digital começa a assumir na agricultura. O que se vê é o surgimento de uma nova fronteira para o agronegócio, marcada pelo uso intensivo de inovação. O que aumenta ainda mais a expectativa com o futuro é imaginar que, além de gerar riquezas para o Brasil, é no campo que estão as maiores chances de o País encontrar suas Apples, Facebooks e Googles – não necessariamente pelo gigantismo, mas principalmente pelo caráter inovador e pelo alcance global do agronegócio nacional.

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