Connoly: A realeza do couro

Conheça a marca inglesa que fornece para a rainha e para modelos de Bentley, Rolls-Royce e Jaguar

“O sucesso do (agronegócio do) Brasil está baseado em dados”

Joseph Byrum, cientista de dados do Principal Financial Group (EUA)


11.11.16

Por Rachel Costa, de Londres

É tão forte a relação entre a família Connolly e o mundo dos couros que há até uma expressão em inglês em referência ao sobrenome: “connolisation”. A palavra descreve um processo criado por eles para recuperar a cor original dos estofados automotivos perdida após os anos de uso, método que se tornou popular entre restauradores de carros.

O termo dá uma ideia da importância desse clã britânico para o meio automobilístico. Porém, mais que uma palavra, os Connolly são hoje sinônimo de couro, dentro e fora do Reino Unido. O toque macio, as cores sóbrias, a alta durabilidade e o odor suave característicos de suas peças foram imortalizados pelo mercado de automóveis de luxo, sobretudo os fabricados na terra da rainha Elizabeth. RollsRoyce, Bentley e Jaguar possuem modelos revestidos pela marca Connolly.

Um caso raro de empresa que conseguiu ganhar fama em uma cadeia produtiva normalmente mantida longe dos holofotes e dos olhos do consumidor. Embora estime-se que o mercado global de couros movimente ao menos US$ 100 bilhões a cada ano, pouco é sabido sobre seus protagonistas.

Não é o caso dos Connolly. Os 138 anos de tradição os tornaram tão conhecidos entre os amantes de carros que gozam de uma área especial no departamento de customização de automóveis da italiana Ferrari. “Se você quiser que seu Ferrari venha com algo muito especial, você pode ter Connolly em seu revestimento”, diz Jonathan Connolly, representante da quarta geração da família no negócio de couro e atual diretor da empresa.

Antes mesmo de existirem Ferraris, em 1902, foi exatamente este o desejo do rei Eduardo VII: que a carruagem usada em sua coroação fosse revestida em couro dos Connolly. Até os dias de hoje e a marca é a “fornecedora oficial de couros para sua majestade”. Democrática, é também dela o clássico revestimento verde dos assentos do parlamento britânico.

O carisma conquistado pelo clã é tão grande que foi capaz de resistir até mesmo aos dez anos em que a companhia fechou as portas, de 2002 a 2012, após uma desastrosa tentativa de entrada no mercado americano. Mas o que o torna tão especial? Para Jonathan, a chave do sucesso é o processo meticuloso de trabalho, passado de geração em geração. Cada peça de couro é única, ensina Connolly, e é essa singularidade natural que lhe dá beleza e que deve ser preservada.

O cuidado começa já na escolha da matéria prima. É o próprio Jonathan quem cuida das compras. Hoje aos 55 anos, ele conhece o negócio como a palma de sua mão. “Trabalhei com isso toda a minha vida, infelizmente”, fala entre risos. “Vinha para a fábrica durante as férias do colégio. Passei por todos os departamentos. Então, eu conheço todo o processo, o que é fundamental para um produto cheio de segredos”.

Uma de suas principais habilidades, conta Jonathan, é quase um super poder: a pele é escolhida ainda com pelo. É preciso ser capaz de antever qual será a aparência do material após a raspagem e, para isso, tato e visão são importantes, mas é mesmo a experiência de quem passou a vida entre couros que faz toda a diferença.

A matéria-prima usada vem, atualmente, de fazendas no próprio Reino Unido, algo relativamente novo na “linha de produção” da marca que, por décadas, importou peles da Escandinávia. O jogo mudou quando os criadores locais começaram a perceber que cuidando melhor do gado, eles obtinham mais leite, mais carne e melhor pele. “Levou anos, mas hoje a pele produzida aqui tem qualidade”, avalia. A conquista do mercado pelo Reino Unido apenas reforçou o domínio europeu, principalmente dos países do norte, sobre o mercado de peles especiais. Suíça, França e Alemanha, além dos nórdicos, são alguns dos tradicionais produtores da matéria- prima para o mercado de luxo.

O clima mais frio dessas regiões é um aliado. Graças a isso, há menos mosquitos e carrapatos o que, somado à menor presença de arame farpado nas pastagens, cria a combinação perfeita para uma matéria-prim mais preservada, com menos machucados e altamente desejada pelas marcas de luxo.

Muitas delas hoje produzem suas próprias peças. Grifes como Prada, Luis Vui¸ on e Hermès, todas elas incluíram tanneries (expressão em francês para designar os curtumes) em seus negócios. “Eles querem evitar o risco de ficar sem couro para seus produtos, uma vez que sempre foram clientes que demandam muito e que querem sempre o melhor em termos de qualidade e de tempo de entrega”, explica Olivier Sterbik, portavoz da centenária marca belga Ruitertassen, cujas clássicas bolsas em couro custam uma média de R$1.200.

No caminho inverso, Connoly quer que sua grife esteja estampada também em produtos de consumo. À PLANT PROJECT, Jonathan antecipou que a Connolly voltaria a ter uma loja em Londres, no número 4 da Cliff ord St, na região de Piccadilly Circus (atualização: a loja foi aberta e está funcionando). Sapatos, caxemiras e acessórios estarão à venda, junto de um showroom dos revestimentos da marca para aqueles que não se contentarem em voltar para a casa apenas com compras que cabem na sacola – e queiram encomendar o estofamento do carro ou da casa.

 

Reportagem publicada na edição #0 de Plant Project (julho de 2016)

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